Respostas Neurais a Estímulos Visuais de Alimentos Após Um Café da Manhã Normal Versus Rico em Proteínas em Adolescentes Que Pulam o Café da Manhã: Um Estudo Piloto Com Ressonância Magnética Funcional
Serviço de Atendimento ao Profissional - Saúde Pública
Introdução - Jovens com sobrepeso e obesidade parecem estar sob risco aumentado dos fatores ambientais obesogênicos. Dados recentes de nosso laboratório sugerem que a realização do café da manhã leva à redução dos marcadores fisiológicos de apetite e aumenta os marcadores de saciedade, além de reduzir o consumo de energia na refeição que sucede o café de manhã, em adolescentes que não têm o hábito de realizar tal refeição. E benefícios adicionais foram observados quando o café da manhã tem teor elevado de proteínas. Poucos estudos têm avaliado se os mecanismos neurais, não homeostáticos, relacionados ao comportamento alimentar também são moduláveis por intervenções dietéticas.
Objetivos - 1) determinar se a adição diária do café da manhã, independentemente da composição em termos de macronutrientes, influencia regiões específicas do cérebro associadas à motivação alimentar e à recompensa em adolescentes do sexo feminino que pulam o café da manhã; 2) determinar se a composição em termos de macronutrientes dessa refeição (aumento do teor de proteínas) promove impacto adicional sobre essa resposta; 3) identificar se as respostas cerebrais estão associadas a índices de percepção de saciedade.
Metodologia - A amostra final foi composta por 10 meninas com idade entre 13 e 18 anos, sob classificação de sobrepeso ou obesidade , sem doenças metabólicas ou neurológicas ou complicações de saúde ou transtornos alimentares, que almoçam frequentemente (mais de 5 vezes na semana), mas não consumir café da manhã com freqüência (menos de 2 vezes na semana). O desenho do estudo foi semi-randomizado e em crossover.
Desenho do estudo:
As refeições de cada grupo foram fornecidas pelo laboratório ao início de cada semana de estudo, e as adolescentes foram orientadas a consumir o café da manhã entre 7:00 e 9:00 por 6 dias consecutivos, em suas residências. As características das refeições padrão, que provinham aproximadamente 24% das necessidades energéticas estimadas para est a amostra, estão listadas na tabela a seguir. No sétimo dia de cada semana de estudo, as adolescentes eram levadas ao laboratório para consumir seu café da manhã como feito em casa nos demais dias, e submetidas primeiramente a um questionário de percepção de apetite (fome, desejo de comer, consumo alimentar esperado para a próxima refeição) e saciedade, e posteriormente, à ressonância magnética funcional, que ocorria antes do almoço, durante as quais as mesmas deveriam focar a visão em figuras apresentadas durante 2,5 segundos, divididas em 13 blocos contendo alimentos, animais e imagens turvas. Este exame tinha como objetivo acessar as respostas cerebrais a cada figura. Para a realização dos testes estatísticos foi utilizado o teste ANOVA com a significância de P=0,01.
Características da dieta
Café da manhã com teor de proteínas normal
Café da manhã com elevado teor de proteínas
Energia (kcal)
490 + 10
491 + 10
Proteínas (g)
18,3 + 0,3 (15%)
49,9 + 0,1 (40%)
Carboidratos (g)
77,2 + 1,6 (65%)
51 + 1,4 (40%)
açúcares (g)
12,6 + 0,3
12,8 + 0,2
fibras (g)
6,8 + 0,1
7,1 + 0,1
Gorduras (g)
10,7 + 0,2 (20%)
10,9 + 0,2 (20%)
Cardápios do dia de teste
Quadrados de cereal crocante + leite
Waffle com xarope
(32g de cereal de arroz tostado, 62g de cereal de trigo tostado, 32g de leite integral, 235g de leite com 2% de redução do açúcar)
(85g de queijo cottage, 80g de ovo líquido, 10,8g de margarina, 32,2g de farinha crua, 47g de pão, 3,2g de xarope de bordo, 44g de xarope de bordo sem açúcar) +
Iogurte (85g de queijo cottage batido, 20g de framboesas)
Palatabilidade
64 + 9
58 + 7
Resultados – O consumo de café da manhã levou a reduções duradouras (até 3h após a realização do café da manhã) na ativação neural em resposta ao estímulo alimentar do hipocampo, amídala, giro do cíngulo e parahipocampo em relação ao grupo que não consumiu café da manhã. As refeições com maior teor de proteínas levaram a reduções duradouras na ativação da ínsula anterior e do córtex pré-frontal mediano em comparação às refeições com teores normais de proteínas. Ativações nas regiões do hipocampo, amídala, giro do cíngulo e ínsula estão relacionadas ao apetite e inversamente relacionadas à saciedade.
Discussão – Ativações em muitas das regiões límbicas estão associadas à percepção de fome, desejo de comer e motivação alimentar. Os dados encontrados indicam que a adição diária de um café da manhã com teor elevado de proteínas leva a reduções duradouras da atividade cerebral de regiões associadas à motivação alimentar e recompensa. Esse é um passo inicial, mas vital para identificar como modificações alimentares sutis podem alterar as respostas neuronais relacionadas à motivação alimentar e recompensa. O estudo apresentou algumas limitações, tais como a impossibilidade de controlar a fase do ciclo menstrual em que cada adolescente se encontrava nos dias de teste, o que pode ter afetado o apetite das mesmas, devido à flutuação hormonal; a amostra era pequena, o que foi corrigido com ajustes estatísticos para que os resultados fossem aplicáveis a populações maiores, mas ainda assim é necessário cuidado para generalizar os dados, e por isso o estudo é considerado preliminar.
A lógica do estudo se baseia na correlação entre pular o café da manhã, o comportamento alimentar baseado em recompensa e a obesidade, sugerindo que consumir o café da manhã, em especial com composição de elevado teor protéico, reverteria estes resultados indesejados, o que deve ser visto com cautela, pois ainda que haja forte correlação entre o hábito de pular o café da manhã e a obesidade, há poucos dados que indicam que este hábito desempenha um papel causal no desenvolvimento da obesidade.
Conclusão – Os adolescentes nos EUA são expostos diariamente a estímulos alimentares sem limites, o que pode levar à ingestão excessiva de alimentos. Além disso, pular refeições é uma prática comum entre os adolescentes que pode contribuir para a suscetibilidade a esses estímulos ambientais negativos. Faltam recomendações dietéticas para combater o hábito de se alimentar mediante recompensa, especialmente em se tratando de adolescentes. No presente estudo foi demonstrado que a adição do café da manhã ao hábito alimentar de adolescentes que pulam o café da manhã leva a reduções na ativação cerebral de áreas chave específicas (pré-frontais e límbicas) envolvidas com a motivação e recompensa, e relacionadas à sensação de fome, desejo e motivação alimentar. Adicionalmente a isso, um café da manhã com maiores teores de proteínas se mostrou ainda mais benéfico nesse sentido.