
Uma Noite Mal Dormida Pode Dificultar a Habilidade do Organismo em Usar a Insulina
Serviço de Atendimento ao Profissional - Trabalhos Científicos(A Single Night of Partial Sleep Deprivation Induces Insulin Resistance in Multiple Metabolic Pathways in Healthy Subjects)
Pesquisadores do Leiden University Medical Center realizaram um estudo com nove pessoas, com o intuito de observá-los após uma noite de oito horas de sono e após uma noite de quatro horas de sono. Os resultados mostraram que, mesmo uma única noite mal dormida reduziu alguns tipos de sensibilidade à ação da insulina em cerca de 19 a 25%.
Introdução
Noites bem dormidas são parte responsável da homeostase do metabolismo da glicose. Em circunstâncias fisiológicas, o metabolismo da glicose apresenta um padrão diurno com variações intraindividuais de tolerância à glicose: a utilização da glicose é maior durante a vigília e menor durante o sono REM.
Reduções na duração do sono resultam em menor tolerância à glicose. Estudos epidemiológicos documentaram uma forte associação entre a restrição de sono e a baixa tolerância à glicose. De acordo com estes achados, estudos experimentais mostraram que a restrição de sono para 4h por noite durante duas ou mais noites reduziram a tolerância à glicose em até 40%. Entretanto, os efeitos de apenas uma noite de restrição de sono na sensibilidade à insulina são desconhecidos. Alem disso, estudos anteriores não analisaram a insulina através do método Euglycemic Hyperinsulinemic Clamp (EHC), que é considerado padrão ouro para medição de sensibilidade à insulina.
O presente estudo teve como objetivo analisar se apenas uma noite de restrição de sono poderia induzir resistência à insulina em pessoas saudáveis. O estudo também comparou os efeitos de uma noite de restrição e uma noite bem dormida na sensibilidade à insulina (hepática e periférica) sob condições do método EHC.
Metodologia
Foram recrutados cinco homens e quatro mulheres saudáveis, com pesos estáveis durante os três meses que antecederam o estudo. Estes foram instruídos a não modificarem seus hábitos durante todo o período do estudo.
Os critérios de exclusão foram IMC > 26Kg/m², distúrbios do sono, duração do sono habitualmente menor do que seis horas ou mais de nove horas, distúrbios psiquiátricos e uso de calmantes ou medicamentos que afetem o metabolismo de glicose. Os participantes foram avaliados durante três dias, separados por intervalos de no mínimo três semanas. Todos os participantes preencheram um diário detalhado com a dieta e atividade física durante os três dias que antecediam os exames e foram orientados a não modificarem muito seus padrões de horário de refeições e de sono.
Os participantes eram admitidos na clínica um dia na noite anterior ao estudo e ficavam 8h30min na cama (23h às 7h30min). Na noite em na qual foram submetidos à restrição de sono, também permaneceram 8h30min na cama, no entanto somente podiam dormir da 01h a.m. às 05h a.m. Durante o restante do tempo, podiam ler e assistir a filmes.
Históricos do sono foram gravados a partir de polissonografia e pontuados a partir dos três estágios de sono, de acordo com a Associação Americana de Medicina do Sono (estágios I, II e II do sono não REM e sono REM). A duração total do sono foi a soma destes quatro estágios.
Resultados
A duração do sono foi consideravelmente menor na noite de restrição parcial de sono. O estagio III da fase não REM foi maior na noite de restrição, enquanto a porcentagem da fase REM não diferiu significativamente entre as noites.
- Os efeitos da restrição parcial de sono nos parâmetros metabólicos basais
Em comparação com o sono normal, a noite de privação parcial de sono não alterou níveis basais de glicose, ácidos graxos não esterificados (NEFA), insulina, glucagon e cortisol.
- Os efeitos da restrição parcial do sono nos parâmetros metabólicos durante o teste de EHC
A restrição parcial de sono resultou em um aumento de aproximadamente 22% na produção de glicose, indicando resistência à insulina. Além disso, a restrição de sono diminuiu em 20% a taxa de desaparecimento da glicose, refletindo a diminuição da sensibilidade à ação da insulina. Dessa maneira, a taxa de infusão de glicose necessária para manter os níveis séricos de glicose durante o estudo foi aproximadamente 25% mais baixa depois da noite de restrição de sono. Por fim, a noite de restrição de sono induziu a um aumento de 19% nos níveis séricos de NEFA, o que indicou um declínio da sensibilidade à ação na lipólise.
Discussão
Os resultados indicaram que apenas uma noite de restrição parcial de sono é capaz de reduzir a sensibilidade à ação da insulina em 19-25% e pode induzir à resistência insulínica.
Os resultados do presente estudo enfatizam a importância de uma boa noite de sono como um determinante fisiológico a sensibilidade à ação da insulina.
Este é o primeiro estudo a mostrar que a sensibilidade a insulina é reduzida a partir de diferentes parâmetros metabólicos: 1. Produção endógena de glicose, 2. Absorção de glicose e 3.Lipólise.
E quais são as implicações do presente estudo?
A duração do sono diminuiu consideravelmente nas sociedades ocidentais nas ultimas décadas. Simultaneamente, houve um aumento da prevalência da resistência insulínica e diabetes tipo II.
Este é o primeiro estudo a avaliar os efeitos da privação de sono, durante uma única noite, em relação à ação da insulina no organismo. Esta pode ser uma explicação para o aumento da resistência insulínica e o maior número de diabetes mellitus observado. No entanto, estudos com a participação de maior número de indivíduos são necessários.
Referências Bibliográficas
DONGA, E.; DIJK, M.; DIJK,G et al. A single night of Partial Sleep Deprivation Indices Inculin Resistence in Multiple Metabolic Pathways in Healthy Subjects. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. Junho, 2010.