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Mel e Botulismo na Infância: Entenda os Riscos
Saúde & Qualidade de Vida - Crianças

Muitas mães, na tentativa de evitar o consumo de açúcar de cana por seus bebês, optam por escolhas tidas como mais saudáveis para adoçar os sucos ou chás. Neste âmbito, o consumo de mel, que é também utilizado na infância por possíveis propriedades expectorantes, torna-se uma alternativa supostamente mais saudável, porém este é altamente contra-indicado para crianças de até 12 meses de vida.

Este alimento é uma fonte potencial de transmissão do botulismo, principalmente pela deficiência de fiscalização nas propriedades produtoras do mel in natura. A criança durante os primeiros anos da vida ainda está adquirindo a imunidade necessária para protegê-la de microrganismos patogênicos como o Clostridium botulinum, que causa o botulismo. (Sillos & Fagundes, 2007).

O botulismo ocorre quando há a ingestão de esporos presentes no alimento, seguida da fixação e multiplicação do agente no ambiente intestinal, onde ocorre a produção e absorção da toxina. A ausência da microbiota de proteção permite a germinação de esporos e a produção de toxina na luz intestinal. Essa transmissão ocorre com maior freqüência em crianças com idade entre 3 e 26 semanas – motivo pelo qual foi inicialmente denominado botulismo infantil (Guia de vigilância epidemiológica, 2005).

A figura abaixo mostra o bloqueio da placa motora pela toxina botulínica:

Nas crianças, o aspecto clínico do botulismo intestinal varia de quadros com constipação leve à síndrome de morte súbita. Manifesta-se inicialmente por constipação e irritabilidade, seguidos de sintomas neurológicos caracterizados por dificuldade de controle dos movimentos da cabeça, sucção fraca, disfagia, choro fraco, hipoatividade e paralisias bilaterais descendentes, que podem progredir para comprometimento respiratório. Casos leves caracterizados apenas por dificuldade alimentar e fraqueza muscular discreta têm sido descritos (Guia de Vigilância Epidemiológica, 2005).

O botulismo infantil foi reconhecido inicialmente em 1976 ocorrendo em lactentes menores de 1 ano pela ingestão dos esporos do Clostridium botulinum contidos em alimentos mal conservados. Estudos epidemiológicos e clínicos vêm mostrando um crescimento na incidência desta patologia nos últimos anos. De todos os alimentos que oferecem risco para o botulismo infantil o mel constitui a principal fonte (Barreto & Silva, 2007).

De acordo com a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), em maio de 2007, meios de comunicação divulgaram que 16% do mel brasileiro poderia estar contaminado com Clostridium botulinum. A partir disso, produtores e comercializadores de mel, preocupados com a repercussão da reportagem, solicitaram que a ANVISA se manifestasse sobre o assunto. Então, com as devidas orientações dos especialistas, foi realizado um levantamento no país e notou-se que até aquele momento não havia qualquer notificação de caso confirmado da doença no Brasil (ANVISA, 2008).

Com base em publicações oficiais da Secretaria de Vigilância em Saúde/ Ministério da Saúde e publicações científicas sobre contaminação do mel brasileiro com Clostridium. botulinum elaborou-se o Informe Técnico nº. 37, de 28 de julho de 2008, que descreve todos os aspectos da doença e coloca como estratégia de prevenção que a população deve ser orientada sobre o preparo, a conservação e o consumo adequado dos alimentos associados a risco do adoecimento. Especificamente no caso do botulismo intestinal, os pais e educadores devem ser alertados para não incluir o mel na alimentação de crianças menores de um ano de idade. Medidas sanitárias cabíveis devem ser adotadas de acordo com a legislação vigente e a situação encontrada (ANVISA, 2008).

Portanto, existe uma preocupação das autoridades epidemiológicas em relação a essa doença, porque, apesar de rara por causas das técnicas de higiene e da utilização das boas práticas de fabricação, ainda existe uma pequena parcela de surtos no país. Em função disto, o melhor a fazer é conscientizar o consumidor e as mães dos riscos que certos alimentos, como o mel, podem trazer às suas famílias, devendo os mesmos utilizarem técnicas com o cozimento das conservas, não alimentar lactentes com alimentos suspeitos ou até deixar de comprá-los. Estas medidas podem ser de grande ajuda para a erradicação ou diminuição da incidência do botulismo (Monte & Giugliani, 2004).

Referências bibliográficas:

  • SILLOS, M. D; FAGUNDES. U. N. Foodborne – Doenças Veiculadas por Alimentos - Intoxicação Alimentar. Disponível em: <http/egastroped.com.br/sept04/intoxica.htm>. Acesso em: 21 de nov. 2007.
  • Guia de Vigilância Epidemiológica; Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. 6. Ed. Brasília. 2005. 816 p.
  • VRANJAC, A. Investigação do Surto de Botulismo Associado ao Tofu (Queijo de Soja) no Município de São Paulo. Curso EpiSUS,  São Paulo, SP. 2006.
  • MONTE, C. M. G; GIUGLIANI E. R. J. Recomendações para Alimentação Complementar da Criança em Aleitamento Materno. Jornal da Pediatria. Rio de Janeiro, RJ. vol.80, n°05 supl./S 131. 2004.
  • MENDES, R. Botulismo no mel – Revisão de literatura – Unv. Castelo Branco. Instituto de Pós Graduação Qualittas em Medicina Veterinária. Curso de Higiene e inspeção de produtos de origem animal. Brasília. 25 de fev. 2008
  • BARRETTO, J. R; SILVA, L. R. Intoxicações Alimentares. Disponível em: <www.medicina.ufba.br/.../dep_pediatria/disc_pediatria/disc_prev_social/roteiros/diarreia/intoxicacoes.pdf>. Acesso em: 19 de nov. 2007.
  • SOUSA, R. Silva; CARNEIRO, J. G. M. Pesquisa de sujidades e matérias estranhas em mel de abelhas (Apis mellifera L.). Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 28(1): 32-33, jan.-mar. 2008
Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em www.anvisa.gov.br. Acesso em 27/08/2008