
Beber ou Não Beber – Eis a Questão
Saúde & Qualidade de Vida - CuriosidadesDebates científicos sobre os riscos e benefícios do álcool começaram na Europa há alguns séculos atrás e perduram até os dias atuais. Quanto de álcool as pessoas devem consumir e o que devem beber são algumas das perguntas que necessitam de respostas.
Um tema recorrente é que apesar de as doses maiores serem maléficas ao coração (por causarem arritmias, cardiomiopatias e hipertensão), o consumo leve ou moderado de álcool está associado a redução das doenças coronarianas e até da mortalidade.
Em uma revisão de literatura, torna-se evidente que a definição da quantidade de álcool em um drinque varia muito de país para país e termos como leve, moderado e alto recebem definições variadas.
Álcool e Mortalidade Total e por Doença Cardiovascular
Um a excelente meta-análise de estudos prospectivos foi publicada por Di Castelnuovo et al, mostrando a relação entre a quantidade de álcool ingerida e a mortalidade. Os autores apresentaram um gráfico em forma de J ao relacionar a ingestão alcoólica e a numero de mortes, no qual após uma redução da mortalidade, conforme o consumo de álcool aumentava, a curva alcançava um platô e então apresentava um aumento da mortalidade pelo consumo de doses maiores de álcool. Neste estudo, a menor taxa de mortalidade foi observada com o consumo diário de 6g de álcool (aproximadamente ½ drinque). Houve diferença entre os sexos: enquanto até 4 drinques servia como proteção para os homens, apenas 2 drinques era suficiente para as mulheres obterem a mesma proteção. Doses maiores que estas estavam relacionadas a maiores taxas de mortalidade.
Graziano et al estudou 89299 homens com idades entre 40 e 84 anos e que não apresentavam infarto agudo do miocárdio. O consumo usual de álcool foi determinado através de um questionário e os pacientes foram avaliados por 5 anos e meio. Os investigadores observaram uma curva em U descrevendo a relação entre ingestão de álcool e morte por qualquer causa. Aqueles que consumiam de 1 a 3 drinques por mês, 1 drinque por semana, de 2 a 4 drinques por semana, 5 a 6 drinques por semana, 1 drinque por dia e mais de 2 drinques por dia apresentaram menores chances de morte do que aqueles que não ingeriam álcool.
Este mesmo grupo de pesquisadores mostrou que o tipo de bebida pode influenciar nos resultados. Aqueles que consumiam de 8 a 21 taças de vinho por semana tinham um pequeno risco de morte, enquanto que aqueles que consumiam cerveja de maneira leve a moderada apresentavam menores riscos. Pessoas que consumiam vinho moderadamente apresentavam menores riscos de morte se comparados àqueles que não consumiam bebida alcoólica. Os consumidores de vinho apresentaram também menores riscos de câncer se comparados aqueles que não consumiam vinho.
Thurn et al reportaram os resultados de um estudo de grande porte de 490000 homens e mulheres que foram acompanhados por 9 anos. A taxa de morte por doenças cardiovasculares foi 30 a 40% menor entre aqueles que consumiram ao menos 1 drinque por dia em comparação com aqueles que não consumiam nenhuma bebida alcoólica.
Benefícios do consumo de álcool
Quais são os benefícios através do quais o álcool tem o poder de diminuir a mortalidade, especialmente aquelas relacionadas às doenças do coração?
O álcool tem o poder de aumentar o HDL-colesterol. Voluntários sadios que consumiram diariamente 1 taça de vinho tinto tiveram uma significante redução na viscosidade do plasma. Alem do álcool, as substâncias não alcoólicas como os flavonóides e o resveratrol devem ter importante papel nesta função.
O beneficio potencial do consumo moderado de álcool nos lipídios sanguíneos parece ser mais importante entre aqueles pacientes com maiores riscos, por exemplo, os com síndrome metabólica. O alto consumo de álcool, por outro lado pode aumentar os riscos de síndrome metabólica. Dessa maneira, o consumo moderado de álcool é benéfico para os níveis séricos de lipídeos, enquanto auxilia na diminuição da taxa de mortalidade, enquanto que o consumo excessivo acarreta exatamente o efeito oposto.
Álcool e Hipertensão
Vários estudos sugeriram que o consumo excessivo de álcool causa aumento da pressão arterial. Klatsky et al estudaram 83947 homens e mulheres e encontraram que homens e mulheres que consumiram mais de três drinques por dia apresentavam maior pressão arterial se comparados àqueles que não consumiam álcool. No Estudo Internacional de Sódio, Potássio e Pressão Arterial (INTER – SALT) também observou-se correlação positiva entre o consumo de álcool e a pressão arterial. O consumo excessivo de uma só vez teve maior relação com o aumento da pressão arterial se comparado ao mesmo consumo, em doses menores e espaçadas.
O mecanismo pelo qual a pressão aumenta a partir do consumo de álcool pode ser explicado pela estimulação do sistema nervoso simpático.
Mas e o consumo leve ou moderado da bebida? Malinski et al explorou este assunto como parte do Phisicians´ Health Study. Os cientistas estudaram14125 homens hipertensos que preencheram questionário a respeito do consumo de bebida alcoólica. O estudo concluiu que consumo leve ou moderado de álcool reduz os riscos de mortalidade total e por doenças coronarianas em homens hipertensos.
Em outro estudo, de Beulens et al, 11711 homens hipertensos participaram do Health Professionals Follow-Up Study. Os autores observaram que aqueles que consumiam álcool moderadamente apresentavam menor risco de infarto. Neste estudo, no entanto,a ingestão de álcool não teve relação inversa à mortalidade.
Bulpitt recentemente pesquisou sobre o consumo de álcool em idosos hipertensos. Depois de avaliar diversos resultados, o pesquisador concluiu que pacientes hipertensos com mais de 60 anos que consumiam mais de 16 drinques por semana deveriam diminuir o consumo, mas não parar totalmente: um drinque por dia poderia ser benéfico. Entretanto, o pesquisador não aconselhou aqueles que não bebiam a começarem a beber.
Beber ou não beber? A maioria dos estudos atuais mostram que o consumo de 1 a 2 drinques pelos homens e de 1 drinque pelas mulheres, diariamente, trazem benefícios para o sistema cardiovascular. Mas estudos maiores e mais consistentes são necessários para que o consumo do álcool, em doses específicas, seja recomendado como medida preventiva e que ele passe a fazer parte de uma dieta saudável.
Referência Bibliográfica:
KLONER, R.A.; REZKALLA, S.H. To Drink or Not to Drink? That is the Question. Circulation. 117(6):e160, February 12, 2008. American Heart Association.