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Imunidade Intestinal
Saúde & Qualidade de Vida - Curiosidades

O intestino é um órgão extremamente importante para o funcionamento do organismo humano, sob diversos aspectos. Este órgão divide-se em duas partes, anatomicamente bastante diferentes e com funções também diversas: o intestino delgado e o grosso, também denominado cólon (SILVERTHORN, 2003).

O intestino delgado mede cerca de quatro metros de comprimento e se acomoda, enovelado, na cavidade abdominal. Divide-se em 3 segmentos principais: duodeno, jejuno e íleo, e possui a parede interna repleta de vilosidades, que aumentam a superfície de contato com os nutrientes. É no duodeno, principalmente, que a maioria dos nutrientes á absorvida. O intestino grosso é o segmento intestinal que se localiza imediatamente após o intestino delgado, e suas funções principais são a absorção de água e a formação do bolo fecal (MAHAN & ESCOTT-STUMP, 2002).

Apesar das funções digestiva e absortiva serem as mais difundidas deste órgão, o intestino desempenha também funções hormonais, motora, nervosa e imune. Relacionada a esta última função está a capacidade do intestino em, conjuntamente a todo o Sistema Imunológico, evitar que agentes nocivos, como o estress fisiológico ou psicológico, os microorganismos patogênicos e os corpos estranhos, prejudiquem a saúde.

A função imune do intestino se baseia em três linhas de defesa, cada qual com funcionamento e características bem específicas: a microbiota presente no intestino, a mucosa intestinal e o Sistema Imune intestinal.

O intestino humano é habitat natural de uma grande, diversificada e dinâmica população de microrganismos altamente adaptados à vida nas superfícies da mucosa ou no lúmen intestinal. Cerca de 400 a 500 espécies de bactérias habitam o cólon do instestino grosso,em número aproximadamente 10 vezes maior que o de células do corpo. Tal população é proveniente das bactérias que conseguem cruzar as barreiras do estômago e chegam ao intestino, permanecendo vivas ali, se reproduzindo e mantendo-se metabolicamente ativas (BOURLIOUX et al., 2003).

Algumas espécies dessas bactérias são benéficas ao organismo, tais como as pertencentes aos gêneros Bifidobacterium, Lactobacillus e Eubacteria, as quais desempenham um papel de defesa na medida em que podem evitar a permanência de bactérias patogênicas no intestino competindo por sítios de adesão e/ou nutrientes e produzindo substâncias antimicrobianas, e também por estimular a Sistema Imune, promover o desenvolvimento de tolerância imunológica e até mesmo nutrir as células do cólon, facilitando a realização de suas funções (BOURLIOUX et al, 2003; BRANDT et al., 2006).

A mucosa intestinal é o local de maior contato entre o organismo e o ambiente externo e constitui-se, por isso, num importante local de interações entre estes dois meios. Há três formas pelas quais a mucosa pode exercer sua função imune. A primeira delas é a camada de muco, que limita a capacidade adesiva da bactéria patogênica, evita o fluxo de toxinas solúveis em água para dentro do epitélio intestinal, graças à sua superfície hidrofóbica, e possui carboidratos complexos que podem servir de alimento para as bactérias benéficas (DAI et al., 2000).   

O segundo mecanismo protetor da mucosa intestinal são as tight junctions ou junções espessas, estruturas protéicas altamente reguladas que formam uma barreira entre os enterócitos e mantém equilibrada a permeabilidade do intestino, restringindo, assim, a penetração de difusão de patógenos na corrente sanguínea (KINUGASA et al., 2000). E terceiro mecanismo refere-se às defensinas, peptídeos antimicrobianos sintetizados dentro de um grande grânulo secretório (células de Paneth) e, uma vez liberados na luz intestinal, auxiliam na prevenção da proliferação de patógenos ali (OULLETTE, 1999). A função de barreira da mucosa depende diretamente, então, de sua integridade funcional.

Por fim, porém não menos importante, a terceira linha de defesa: o Sistema Imune Intestinal. Também conhecido como Tecido Linfóide Associado Intestino (GALT, da sigla em inglês), ele contém o maior pool de células imunocompetentes do organismo humano (células B do Sistema Imune, produtos de IgA, células apresentadoras de antígenos, linfócitos T, linfócitos intraepiteliais). Este sistema de defesa é essencial para a manutenção da saúde do organismo, uma vez que o intestino pode entrar em contato, diariamente, com milhões de agentes potencialmente patogênicos. Respondendo de maneira semelhante ao Sistema Imune, o GALT captura os antígenos, apresenta-os a células especializadas em placas de Peyer e nodos linfáticos mesentéricos, estimula, então, a produção de IgA (extremamente ativa contra microorganismos patogênicos) e promove toda uma resposta inflamatória que, no entanto, se restringe à superfície da mucosa, evitando a invasão de tecidos por organismos comensais (SANSONETTI, 2006).

Sendo assim, fica clara a extrema importância de manter um ambiente intestinal saudável, o que pode ser feito, por exemplo, por meio de uma alimentação rica em fibras e que provenha reposição dos microorganismos benéficos (os chamados probióticos), principalmente após episódios em que o intestino sofre agressões, como é o caso de diarréias e doenças inflamatórias intestinais.

Referências bibliográficas

BRANDT, K.G.; SAMPAIO MAGDA, M.S.; MIUKI, C.C.J.. Importância da microflora intestinal. Pediatria, 2006.

BOURLIOUX, P.; KOLETZKO, B.; GUARNER, F.; BRAESCO, V.The intestine and its microflora are partners for the protection of the host: report on the Danone Symposium "The Intelligent Intestine," held in Paris. American Journal of Clinical Nutrition, v. 78, n. 4, p.675-683, oct. 2003

DAI, D.; NANTHKUMAR, N.N.; NEWBURG, D.S.; WALKER, W.A. Role of Oligosaccharides and Glycoconjugates in Intestinal Host Defense. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, v.30, p. 23-33, mar. 2000.

KINUGASA, T.; SAKAGUCHI, T.;  GU, X.; REINECKER, H. Claudins regulate the intestinal barrier in response to immune mediators
Gastroenterology, v.118, n.6, p. 1001-1011.

MAHAN, L.K. (editora); ESCOTT-STUMP, S. (editora). Krause - alimentos, nutrição e dietoterapia. 10 ed. São Paulo: Roca, 2002.

OUELLETTE, A.J. Paneth cell antimicrobial peptides and the biology of the mucosal barrier. American Journal of Gastrointestinal and Liver Physiology, v.277, n.2, p. 257-261, aug. 1999.

 

SANSONETTI,P.J. The innate signaling of dangers and the dangers of innate signaling. Nature Immunology, v.7, p.1237-1242, 2006.

SILVERTHORN, D. U. Fisiologia Humana: uma abordagem integrada. 2 ed. Barueri: Manole, 2003.