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Constipação Intestinal
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & Nutrição

A constipação intestinal é definida como a ocorrência de qualquer uma das seguintes manifestações, independentemente do intervalo entre as evacuações: eliminação de fezes duras ou em cíbalos, na forma de seixos ou cilíndricas com rachaduras; dificuldade ou dor para evacuar; eliminação esporádica de fezes muito volumosas ou freqüência de evacuações inferior a três por semana, exceto em crianças em aleitamento natural exclusivo (Baker et al, 1999).

Andrade et al (2003) definem a constipação intestinal como sendo um distúrbio com base em diferentes parâmetros fisiológicos de defecação, incluindo a freqüência das evacuações, o peso das fezes, o tempo de trânsito, o esvaziamento retal e o conteúdo de água das fezes, que, contendo menos do que 75% de água, são endurecidas e não moldáveis.

Clinicamente, o sintoma da constipação significa menos do que três evacuações por semana com sintomas ou dificuldade no esvaziamento retal. Entretanto, o peso individual das fezes correlaciona-se melhor com o tempo de trânsito do que com a freqüência das evacuações, e muitos pacientes mesmo com severas queixas de constipação tem um trânsito global do intestino grosso normal (Andrade et al, 2003).

A constipação intestinal é um sintoma muito comum. Sua elevada incidência está freqüentemente associada à dieta inadequada, sedentarismo, medicamentos, alterações endócrinas e metabólicas, além de doenças colônicas, neurológicas, distúrbios psiquiátricos e causas idiopáticas (Cruz et al, 1990).

Del Ciampo (2002) criou os seguintes critérios para a determinação da constipação intestinal:

Critérios estabelecidos para o diagnóstico de constipação intestinal crônica funcional


Sinais maiores

               Sinais menores

Fezes cilíndricas ressecadas

Volume aumentado

Fezes fragmentadas

Intervalo entre evacuações maior ou igual a 2 dias

Eliminação dolorosa

Sangramento

Eliminação com esforço

Demora a iniciar a evacuação

Escape fecal

 

Constipados: Presença de 2 ou mais sinais maiores, ou 1 maior acompanhado de 2 menores, presentes há mais de 1 mês.

Fonte: Del Ciampo et al, 2002
Há uma variedade de opiniões individuais sobre o que se pode considerar constipação. Alguns se sentem constipados quando não conseguem evacuar diariamente, outros quando as fezes são duras, ou ainda quando a evacuação é dolorosa. A história clínica do paciente são peças-chave para se avaliar a constipação intestinal, sendo que uma boa anamnese é imprescindível (Rodrigues et al, 2004).

A constipação tem-se estabelecido mais freqüentemente em mulheres, principalmente naquelas com inatividade física diária, pouca renda, educação de qualidade inferior, baixo consumo de líquidos e alimentos ricos em fibras (Dukas et al, 2003).
As principais causas da constipação são:

  • Motoras: Síndrome do cólon irritável, uso crônico de laxativos, megacólon, alimentação inadequada, lesões neurológicas, sedentarismo, desequilíbrio hidroeletrolítico, fatores psicogênicos, hipotireoidismo e efeito colateral de medicamentos, como antiácidos (com cálcio e alumínio), antiespasmódicos, diuréticos, analgésicos, anticonvulsivantes e antidepressivos (Locke et al, 2000).
  • Mecânicas: Tumores benignos e malignos, diverticulite, colite isquêmica e compressão extrínseca. Devem ser consideradas, também, as afecções proctológicas, como fissuras, hemorróidas e proctite, que dificultam a evacuação (Locke et al, 2000).
  • Funcionais: É a forma mais comum da constipação em nosso meio. Queixas, com duração de no mínimo 12 semanas, não necessariamente consecutivas, durante o último ano de menos de três evacuações por semana; fezes duras ou sensação de evacuação incompleta em pelo menos 25% das evacuações; dificuldade para evacuar em pelo menos 25% das evacuações e necessidade de manipulação digital para facilitar a saída das fezes (Ambrogini, 2002).

Diferentes abordagens não-medicamentosas (fibras, hidratação, atividade física, hábito intestinal regular, biofeedback, injeção de toxina botulínica, cirurgia) e medicamentosas (laxativos antigos e novos) têm sido propostas para prevenção e tratamento deste problema, tanto em adultos quanto em crianças. Sua eficácia e sua segurança, pouco evidenciadas em estudos controlados, acompanham-se de mitos e concepções inadequadas ao correr dos tempos (COTA & MIRANDA, 2006).

A modificação dos hábitos alimentares, proveniente da ocidentalização e industrialização, tem introduzido um elevado consumo de alimentos refinados desprovidos de fibras alimentares, contidas em maior quantidade em frutas, vegetais e cereais integrais. Por esse motivo, atualmente, existe uma elevada incidência de doenças que eram pouco freqüentes no passado, as chamadas “doenças de civilização”, fazendo parte deste elenco a constipação intestinal (COTA & MIRANDA, 2006).

A ingestão de fibras na dieta, com o aumento do consumo de frutas, vegetais e grãos integrais, é a primeira medida recomendada. Se não se mostra suficiente, um suplemento comercial com fibras pode ser utilizado. A adesão a suplementos com fibras é pequena devido à flatulência, distenção, plenitude e gosto desagradável. Para melhorar a adesão, recomenda-se aumento gradual das fibras por uma a duas semanas (WANNMACHER, 2005).

Outro estudo diz que a adequada ingestão de fibra diminui a prevalência de constipação e outras desordens gastrointestinais, incluindo doença diverticular e câncer coloretal. As fibras aumentam o volume fecal, diminuindo o tempo de trânsito intestinal (SCHAFFER & CHESKIN, 1998).

Os laxativos estão indicados somente quando a adequação dos hábitos alimentares não demonstra diferença significativa de eficácia, sobretudo por longo prazo (WANNMACHER, 2005).

A recomendação dietética de fibras segundo a ADA (Associação Dietética Americana) é de 20-35g/dia ou de acordo com a ingestão calórica, variando de 10 a 13g/dia por 1000 kcal. Porém, os níveis de ingestão de fibras continuam a ser menor do que o recomendado, pois a ingestão usual média relatada é de 14 a 15g/dia (COTA & MIRANDA, 2006).

Na tabela abaixo encontra-se a relação de alguns alimentos e suas respectivas quantidades de fibra alimentar por 100g do alimento.

Concentração de fibra alimentar por 100g do alimento

Alimento (100g)

Quantidade de fibra alimentar (g)

Alface crespa

1,2

Arroz branco

0,3

Arroz integral

1,8

Banana

2,6

Cenoura crua

2,8

Ervilha

2,8

Farelo de aveia

15,4

Farelo de arroz

49,69

Farelo de trigo

42,80

Feijão

6,4

Goiaba

5,4

Laranja

2,4

Maçã com casca

2,4

Maçã sem casca

1,3

Macarrão integral

2,8

Macarrão comum (ovos)

1,1

Manga

1,8

Tomate

1,2

Repolho

2,3

Rúcula

1,6

Semente de linhaça *

33,5

FONTE: Tabela de Composição Química dos Alimentos da UNIFESP.
            * Tabela Brasileira de Composição dos Alimentos – TACO.

Referências

BAKER et al. Constipation in infants and children: evaluation and treatment. A medical position statement of North American Society for Pediatric Gastroenterology and Nutrition. J Ped Gastroenterol Nutr , v.29, 1999.

Andrade et al. Assistência farmacêutica frente à obstipação intestinal no idoso. Infarma, v.15, n.9, 2003.

Cruz JV, Sudbrack C, Wilson TJ. Tratamento cirúrgico da retocele como causa de constipação. Revista Brasileira de Coloproctologia, v.10, n.1, p.5-7,  1990.

DEL CIAMPO et al, Prevalência de constipação intestinal crônica em crianças atendidas em unidade básica de saúde. Jornal de Pediatria, v.78, n.6, 2002.

RODRIGUEZ, T.N; ROCHA, E.C.V; ZANANDRÉA, E.F. Síndrome da Obstipação Intestinal, Revista  Brasileira de  Medina, v. 61,  p.174-80, 2004.

DUKAS, L; WALTER, C.W; GIOVANNUCCI, E.L. Association Between Physical Activity, Fiber Intake, and Other Lifestyle Variables and Constipation in a Study of Women. American  Journal Gastroenterology, v.98, p.1790-96, 2003.

LOCKE GR III; PEMBERTON JH & PHILLIPS SF. American Gastroenterological Association medical position statement: Guidelines on constipation. AGA technical review on constipation. Gastroenterology 119: 1761-1778, 2000.

AMBROGINI, O.J.; MISZPUTEN, S.J. Constipação intestinal crônica. Rev Bras Med, v.59, p.133-9, 2002.