
Entendendo a Síndrome Metabólica
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & NutriçãoA Síndrome Metabólica (SM) é definida como o agrupamento de algumas das seguintes características: obesidade central, resistência insulínica (RI), dislipidemia aterogênica, hipertensão, marcadores de inflamação vascular e homeostasia da glicose alterada, que estão associadas ao aumento no risco de doenças cardiovasculares (DCV) e diabetes tipo 2 (SILVEIRA, 2008).
Reaven, na década de 1980, observou que a dislipidemia, a hipertensão arterial e a hiperglicemia eram condições freqüentemente associadas em um mesmo indivíduo e conferiam maior risco cardiovascular, situação a qual denominou de síndrome X. Desde então, surgiram diversas definições para SM (LOTTENBERG. et al, 2007).
Duas principais definições da síndrome metabólica foram apresentadas: a primeira pela OMS e a outra pelo Third Report of the National Cholesterol Education Program's Adult Panel (ATP-III). A definição da OMS privilegia a presença dos fatores de risco e é caracterizada pela resistência à insulina ou pela alteração do distúrbio do metabolismo da glicose. Os critérios da ATP-III apresentam maior aplicabilidade na prática clínica, pois não necessitam de teste oral de tolerância à glicose, como o da OMS, sendo adotados pela I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (CAVAGIONI, 2008).
A tabela abaixo, compara os critérios das mais importantes instituições com publicações a respeito:
Definições da Síndrome Metabólica de acordo com diferentes entidades.
OMS, 1998 (4)
NCEP - ATP III 2001 (5)
IDF, 2006 (6)
Diagnóstico de SM Firmado por
Resistência à insulina e presença de mais 2 componentes
Presença de 3 dos 5 componentes
Circunferência abdominal alterada e presença de mais 2 componentes
Componentes
Resistência à insulina
TDG, GJA, DM tipo 2 ou sensibilidade à insulina diminuída
-
-
Composição Corporal
Razão cintura-quadril:
Homens > 0,90 cm
Mulheres > 0,85 cm
e ou IMC > 30 kg/m2Circunferência abdominal:
Homens > 102 cm
Mulheres > 88 cmCircunferência abdominal:
Homens > 94 cm
Mulheres > 80 cmLipídeos séricos (mg/dl)
Triglicerídeos ≥150 e/ou homens HDL < 35
Mulheres HDL < 39Triglicerídeos ≥150 e/ ou Homens HDL < 40
Mulheres HDL < 50Triglicerídeos ≥150 e/ ou Homens HDL < 40
Mulheres HDL < 50 ou uso de HipolipemiantesPressão Arterial (mmHg)
≥140 / 90
≥ 130/85 ou uso de anti-hipertensivos
≥ 130/85 ou uso de anti-hipertensivos
Glicose sérica (mg/dl)
TDG, GJA, ou DM tipo 2
> 110 (incluindo DM)
> 100 (Incluindo DM)
Outros
Microalbuminúria
Excreção urinária de albumina >
20 µG/min-
-
OMS: Organização Mundial da Saúde, NCEP - ATP III: National Cholesterol Education Program - Adult Treatment Panel III, IDF: International Diabetes Federation, TDG: Tolerância diminuída à glicose, GJA: Glicemia de jejum alterada, DM: Diabetes Mellito
Fonte: SETEEMBURGO et al, 2007
Estudos recentes tem mostrado que a SM constitui uma combinação particular de fatores de risco cardiovasculares usualmente relacionados à deposição central de gordura e à resistência à insulina. O tecido adiposo apresenta capacidade secretora de substâncias com efeitos biológicos importantes que teriam relação direta com a resistência à insulina. Estas substâncias são, na maioria, polipeptídios entre os quais se incluem: a leptina, a resistina, o peptídio inibidor do ativador de plasminogênio (PAI-1), o fator de necrose tumoral (TNF- a), a interleucina-6 (IL-6), o peptídio estimulador da acilação (ASP), a grelina e a adiponectina. As condições próinflamatórias constituem um elo entre a RI e disfunção endotelial, que é o estágio que precede o desenvolvimento da aterosclerose e tem sido relatado em pacientes com diabetes tipo 2 e em obesos não diabéticos. Nos últimos anos, tem havido um progresso considerável na compreensão dos mecanismos de ação da insulina e os defeitos moleculares que desencadeiam sua resistência. No entanto, é preciso ainda elucidar muitos mecanismos fisiológicos envolvidos na resistência à insulina e determinar a susceptibilidade genética desta resistência, bem como as interações entre os genes e o estilo de vida (BARBARO et al, 2007).
Outros fatores que também têm sido relacionados à SM são: diminuição do tamanho das partículas de LDL colesterol (LDL pequeno e denso); elevação nos níveis da apolipoproteína B; alterações no estado pró-trombótico (elevações nas concentrações do fibrinogênio e aumento de inibidor-1 do ativador de plasminogênio) e no estado pró-inflamatório (aumento das citocinas: fator de necrose tumoral a, interleucina-6 e aumento da proteína C-reativa) e elevação dos níveis de ácido úrico (STEEMBURGO et al, 2007).
Prevalência
A SM é um transtorno de alta prevalência na população em geral. Nos Estados Unidos, a prevalência ajustada para a idade na população adulta é de 23,7%, segundo dados do Third National Health and Nutrition Examination Survey – NHANES III. Não há estudos de prevalência representativos da população brasileira (TEIXEIRA et al, 2007).
De uma maneira geral, a prevalência da SM vem aumentando e esses achados estão associados com a epidemia de obesidade e diabetes. De fato, a SM está fortemente associada ao diabetes tipo 2, onde cerca de 86% dos pacientes são portadores da SM. Esses dados foram confirmados em estudo realizado em Porto Alegre, RS, onde a prevalência de SM em pacientes com diabetes tipo 2 foi de cerca de 90% (SETEEMBURGO et al, 2007).
Etiologia
Podemos considerar a etiologia da SM como multifatorial, sobretudo pelo fato de geralmente ser desencadeada pela presença de obesidade, sedentarismo, hábitos dietéticos e interação com fatores genéticos, o diagnóstico da SM parece identificar pacientes com risco adicional para diabetes mellitus tipo 2 e DCV, comparado à análise de fatores de riscos isolados. Neste sentido, após dados apresentados pelo estudo "Coronary Artery Surgery Study", Nigam et al. referiram aumento da morbimortalidade em pacientes com SM, ao analisarem banco de dados incluindo, aproximadamente 25 mil indivíduos com DCV comprovada ou submetidos à cineangiocoronariografia devido à forte suspeita diagnóstica (NAKAZONE. 2007)
Síndrome Metabólica e DietaA intervenção dietoterápica faz parte da terapia inicial para o manejo da SM como integrante das alterações de estilo de vida (SETEEMBURGO et al, 2007).
A tabela abaixo apresenta alguns estudos que têm analisado o papel de fatores dietéticos relacionados à SM considerando-a como uma entidade clínica independente:
Sumário dos principais estudos que avaliaram Dieta e Síndrome Metabólica.
Estudo
Delineamento
Grupo em estudo
Definição
Intervenção
Duração
Resultados
Freire e cols. (40)
Transversal
877 indivíduos nipo-brasileiros (412 homens; 465 mulheres)
NCEP
-
-
O consumo de gordura total aumentou enquanto o consumo de ácido graxo poliinsaturado linoleico reduz a chance para a presença de SM
Esmallzadeh e cols. (41)
Transversal
827 indivíduos Iraquianos(357 homens; 470 mulheres)
NCEP
-
-
Consumo de grãos integrais foi associado negativamente com hipertensão arterial, hipertrigliceridemia e presença de SM
Steemburgo e cols. (42)
Transversal
214 pacientes com DM tipo 2 (104 homens; 110 mulheres)
IDF
-
-
Consumo alimentos ricos em fibras solúveis (grãos integrais e frutas) foi associado negativamente com a presença da SM
Sahyoun e cols. (43)
Transversal e Coorte
535 indivíduos idosos 179 homens; 356 mulheres)
NCEP
-
3 anos
Consumo elevado de grãos integrais foi associado negativamente com prevalência da SM e com redução de risco de mortalidade CV
Mckeowns e cols. (44)
Coorte
2834 indivíduos (1290 homens; 1544 mulheres)
NCEP
-
4 anos
O consumo de grãos integrais foi associado negativamente e o consumo de alimentos com alto IG associado positivamente com a resistência à insulina e a prevalência da SM
Exposito e cals. (45)
Ensaio Clinico randomizado
180 pacientes com SM (99 homens; 81 mulheres)
NCEP
Dieta mediterrânea vs. dieta AHA
2 anos
Dieta medirerrânea reduziu o número de componentes da SM
Azadbakht e cols. (46)
Ensaio clinico randomizado controlado
116 pacientes com SM (34 homens e 82 mulheres)
NCEP
Dieta DASH vs. Dieta para redução de peso vs. Dieta controle
6 meses
Dieta DASH melhorou acentuadamente o perfil de todos os componentes da SM (vs. Dieta para redução de peso)
Laaksonen e cols. (47)
Ensaio clínico randomizado
72 pacientes com sobrepeso ou obesos (36 mulheres; 36 homens)
NCEP
Dieta com modificação de carboidratos. Pão de centeio e massa vs. Pão de trigo/aveia e batata
3 meses
Dieta com pão de centeio e massa aumentou a primeira fase de secreção de insulina
NCEP: National Cholesterol Education Program, SM: Síndrome Metabólica, IDF: International Diabetes Federation, CV: Cardiovascular, AHA: American Heart Association, DASH: Dietary Approaches to Stop Hypertension, DM: Diabetes Melito
Fonte: SETEEMBURGO et al, 2007
A maioria das sociedades internacionais e nacionais não tem ainda diretrizes específicas para a SM como uma entidade clínica independente, e as recomendações são em geral centradas no manejo dos fatores de risco cardiovasculares. Como exemplo, recente publicação conjunta da American Heart Association (AHA) e da American Diabetes Association (ADA) revisa aspectos de prevenção primária de doenças cardiovasculares em pacientes com DM, onde estão incluídas orientações de dieta. As diretrizes dietoterápicas apresentadas não diferem de forma apreciável daquelas já publicadas por essas e outras entidades onde existe referência específica à SM (SETEEMBURGO et al, 2007).
Com base nas evidências existentes sobre o papel da dieta na SM e nas recomendações das principais entidades, seguem algumas recomendações práticas para o manejo dietoterápico da SM:
Tabela 3. recomendações alimentares para pacientes com Síndrome Metabólica.
Valor diário
Alimentos recomendados
Orientação prática
IMC ≥ 25 kg/m²
800 - 1500 kcal
Dieta balanceada com ênfase no consumo de alimentos pobres em gorduras; vegetais do grupo A liberados; preferência por alimentos com baixo índice glicêmico e por carnes magras
Perder peso é a prioridade; 3 e 4 refeições diárias: alimentos preparados no vapor, forno ou grelha sem gordura adicional; consumir alimentos integrais e ricos em fibras e eliminar álcool
IMC < 25 kg/m²
kcal adequadas á atividade física
Ver Abaixo
Ver abaixo
Nutrientes
Carboidratos
50 - 60% do VET
Preferência por cereais integrais ricos em fibras e alimentos com baixo índice glicêmico
Ingerir diariamente: pão integral ou centeio, arroz e/ou massa integral; leguminosas e frutas de baixo índice glicêmico (goiaba, maçã e laranja) e reduzir sucos e açúcar
Gorduras Saturadas Ácidos graxos trans
< 30% VET < 1% do VET
A maior parte da gordura da dieta deve ser insaturada; Preferência por carnes de peixes e aves; lácteos e derivados pobres em gordura; óleos ricos em ácido graxo poliinsaturados e manosaturados; nozes; amêndoas, castanhas
Consumir leite e queijos magros, carne de gado magra; dar preferência a peixe e frango; azeite de canola, girassol ou milho para cocção e de oliva para temperar; margarina; evitar biscoitos e bolos industrializados e embutidos
Colesterol total
< 200 mg
carnes de peixes e aves pobres em colesterol
Consumir carne de peixe e frango no mínimo 3 vezes por semana; limitar ingestão de carne de gado até 2 vezes por semana
Proteínas
15% do VET
Consumir carnes magras que podem ser substituídas pelas leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico); o consumo de peixes deve ser incentivado; leite desnatado e queijo magro
Ingerir leite ou derivados 2 a 3 vezes ao dia; carne magra 1 vez ao dia
Sal (NaCl)
3 a 6 g
-
Usar o mínimo de sal no preparo de alimentos; não usar sal na mesa; evitar enlatados e embutidos
Fibras
Fibras totais
Fibras
solúveis20 a 30 g > 10 g
Alimentos integrais (pão centeio ou integral e aveia), frutas, vegetais do grupo B e leguminosas, alimentos ricos em fibras solúveis
Ingerir diariamente: alimentos integrais, feijão, frutas ricas em fibras solúveis (laranja, bergamota, mamão papaia, manga), vegetais do grupo B ricos em fibras solúveis (brócolis, cenoura, couve-flor)
Álcool
1 drinque: mulheres 2 drinques: homens
Não existe recomendação do uso de álcool, mas na presença de peso adequado, ausência de hipertrigliceridemia ou outra contra indicação médica, considerar opção do paciente
Dar preferência a bebidas não destiladas; 1 drinque = 355 ml de cerveja, 120 ml de vinho
Fonte: SETEEMBURGO et al, 2007
Referências Bibliográficas
Barbalho, Sandra Maria; Mclellan, Kátia Cristina Portero; Lerario, Antonio Carlos. A síndrome metabólica e sua relação com a resistência à insulina, disfunção endotelial e aterogênese. Nutrire Rev. Soc. Bras. Aliment. Nutr, SP, 32(1):89-100, abr. 2007.
CAVAGIONI, Luciane Cesira et al . Síndrome metabólica em motoristas profissionais de transporte de cargas da rodovia BR-116 no trecho Paulista-Régis Bittencourt. Arq Bras Endocrinol Metab, São Paulo, v. 52, n. 6, ago. 2008.
LOTTENBERG, Simão Augusto; GLEZER, Andrea; TURATTI, Luiz Alberto. Síndrome metabólica: identificando fatores de risco. J. Pediatr. (Rio J.), Porto Alegre, v. 83, n. 5, nov. 2007 .
NAKAZONE, Marcelo Arruda et al . Prevalência de síndrome metabólica em indivíduos brasileiros pelos critérios de NCEP-ATPIII e IDF. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 53, n. 5, out. 2007.
SILVEIRA, Vera Maria Freitas da; HORTA, Bernardo Lessa. Peso ao nascer e síndrome metabólica em adultos: meta-análise. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 42, n. 1, fev. 2008.
STEEMBURGO, Thais et al . Fatores dietéticos e síndrome metabólica. Arq Bras Endocrinol Metab, São Paulo, v. 51, n. 9, dez. 2007.
TEIXEIRA, Paulo José Ribeiro; ROCHA, Fábio Lopes. Associação entre síndrome metabólica e transtornos mentais. Rev. psiquiatr. clín., São Paulo, v. 34, n. 1, 2007.