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Hipercolesterolemia – Como a
Alimentação Pode Ajudar?

Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & Nutrição

Apesar dos avanços em prevenção e tratamento, as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de 20% das mortes em todo o mundo (NATIONAL CENTER FOR HEALTH DISEASE, 1996). As doenças cardiovasculares pertencem a uma categoria que inclui doença cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC), hipertensão, insuficiência cardíaca congestiva, febre reumática e doença reumática. A doença cardíaca, especificamente, refere-se a diminuição arterosclerótica das artérias coronárias, e os sintomas resultantes incluem angina e ataque cardíaco (KRAUSE, 2005; NACIF; ABREU; TORRES, 2005). Níveis elevados de colesterol LDL (colesterol “ruim”) e de triglicérides são fatores de risco para doença cardíaca. No entanto, o aumento do colesterol HDL (colesterol bom) protege contra a doença cardíaca.

A prevenção das doenças cardiovasculares envolve o conhecimento dos seus fatores de risco, cujo o controle diminui a incidência da doença (PRAÇA; THOMAZ; CARAMELLI, 2004). Sendo assim, para o tratamento desta patologia que envolve a hipercolesterolemia é importante que se reduza na dieta a quantidade de alimentos com alto teor de gorduras saturadas (de origem animal), ricas em colesterol.

A hipercolesterolemia é caracteriza pelo aumento do colesterol total circulante no sangue e pode ser associada à obesidade, alta ingestão de alimentos ricos em colesterol, baixa ingestão de fibras devido a alimentação inadequada ou ainda ser um problema de ordem genética, manifestado por maior produção endógena de colesterol.

No adulto sadio, atualmente, são considerados elevados os seguintes valores (CHACRA; DIAMENT; FORTI, 2005):

 

Hipercolesterolemia Familiar

É um doença genética, caracterizada por alterações no metabolismo dos lipídios, as quais determinam elevações dos níveis plasmáticos de colesterol, às custas do aumento da LDL. São descritas mais de 600 mutações envolvidas nos mecanismos de síntese e expressão dos receptores da LDL, o que se traduz em redução ou não funcionamento desses mecanismos (CHACRA; SANTOS; MARTINEZ, 2004; KRAUSE, 2005).

O diagnóstico deste tipo de hipercolesterolemia é estabelecido por meio de critérios clínicos e pode ser confirmado pela determinação da mutação. Este diagnóstico permite a identificação dessa doença em outros componentes assintomáticos em uma mesma família, podendo-se estabelecer o tratamento adequado da hipercolesterolemia, o que irá prevenir eventos cardiovasculares futuros (CHACRA; SANTOS; MARTINEZ, 2004; KRAUSE, 2005).

Cuidados com a Alimentação

As dietas com ingestão excessiva de colesterol e pobre em frutas, legumes e verduras, são normalmente associadas a ocorrência de hipercolesterolemia. Outro fator considerável nos dias de hoje é o sedentarismo, que com o avanço da tecnologia tem se tornado cada vez mais freqüente na infância. Adultos e crianças passam longas horas no computador ou televisão, deixando de praticar atividades físicas e aumentando a probabilidade de serem obesas e apresentarem dislipidemias.

Ainda, entre os fatores que modificam a concentração plasmática de colesterol, em homens e animais, figura a freqüência de refeições diárias (ARNOLD et al, 1993; JENKINS et al, 1995). Estudos epidemiológicos demonstraram que, o fracionamento das refeições diárias, em porções comidas com maior freqüência, está associado a níveis mais baixos de colesterol sérico e consequente diminuição da hipercolesteroleima (OLIVEIRA; SHIERI, 2004).

Importância da fibra na dieta

Dietas ricas em fibras têm sido claramente associadas à diminuição do risco de mortalidade por doenças cardiovasculares, independente do consumo energético, de gordura ou outros fatores que afetam a dieta. A ingestão de fibras ajuda a diminuir os níveis de colesterol sangüíneo, uma vez que este nutriente diminui a absorção da gordura no intestino. O mecanismo dessa ação é que as fibras ligam-se aos ácidos biliares, levando assim a um aumento na degradação do colesterol e da excreção pela via dos ácidos biliares (CARDOSO et al, 2006).

Alimentos ricos em fibras:

  • Frutas cruas e com casca
  • Vegetais
  • Feijão, ervilhas e outras leguminosas
  • Cereais integrais

Antioxidante

Isoflavonas - Saponinas - Soja

Inúmeros estudos vêm demonstrando os efeitos protetores da soja sobre a doença cardiovascular e sua conseqüente hipercolesterolemia, isso devido as alterações lipídicas (diminuição de LDL e lipoproteína apo B e aumento de HDL), efeitos vasculares, sobre resistência insulínica e progressão de placa de arterosclerose.

Um possível mecanismo da soja como agente hipocolesterolemiante é baseado na ligação das isoflavonas a receptores estrógenos dentro das células de maneira semelhante ao estradiol, o que influenciaria no metabolismo do colesterol e das lipoproteínas (O’KEEFE, 1996).

Sirtori et al (1979) e Descovich et al (1980), já demonstravam que a substituição da proteína animal da dieta por proteína de soja era capaz de reduzir o colesterol LDL de 20 a 30% em hipercolesterolemia severa. Já em uma meta-análise de 38 estudos, publicada em 1995 por Anderson et al, demonstrou que a ingestão de 47g de proteína de soja/dia (contendo 100mg de isoflavonas) promoveu reduções significativas no colesterol total (9,3%), colesterol LDL (12,9%) e triglicerídeos (10,5%), com um pequeno e insignificante aumento (2,4%) do HDL.

A literatura científica oferece muitas informações a respeito do papel da fibra dietética na captura dos ácidos biliares e esteróides neutros no trato digestório, mecanismo pelo qual produz uma diminuição do colesterol plasmático (SIDHU; OKENFUL, 1986). O mecanismo desta ação provavelmente é mediado pelas saponinas presentes nos alimentos (CHEEKE, 1983).

A atividade das saponinas presente na soja sobre a hipercolesterolemia é bastante documentada (OANKEFULL, 2001).  Parece haver dois mecanismos pelo qual as saponinas podem afetar o metabolismo do colesterol: 1 - Algumas saponinas com características estruturais particularmente definidas dão forma a complexos insolúveis com colesterol. Quando este processo ocorre, há a inibição da absorção intestinal do colesterol endógeno e exógeno; 2 - As saponinas podem interferir com a circulação entero-hepática de ácidos biliares formando micelas. Estas podem ter pesos moleculares muito maiores, e a reabsorção de ácidos biliares no íleo terminal é obstruída de forma eficaz.

Sendo assim, o consumo de alimentos a base de soja pode ser mais um importante aliado ao combate da hipercolesterolemia.

Betaglucana – Aveia

Em se tratando da aveia, a ação das b- glucanas, tem sido largamente estudada como agente hipocolesterolemiante. Estudos com farelo de aveia demonstram forte ação na redução dos níveis séricos de colesterol, provavelmente pelo seu conteúdo de goma onde se observou diminuição do colesterol total e LDL. Este efeito pode ser atribuído a absorção de ácidos biliares, após sua desconjugação pelas bactérias intestinais, sendo excretado pelas fezes, diminuindo o pool de ácidos biliares no ciclo entero-hepático; ou pelos ácidos graxos de cadeia curta, produzidos pela degradação bacteriana das fibras no cólon, os quais, também inibiriam a síntese de colesterol hepático e incrementariam a depuração de LDL (WOLK et al, 1999).

O papel da inclusão de aveia na diminuição dos níveis de colesterol total e LDL tem sido documentado em diversos trabalhos científicos desde a década de 60.
Apesar dessas mudanças serem pequenas quando comparadas à terapia medicamentosa, a redução de 1% do colesterol pode reduzir o risco de doença cardiovascular em 2 à 4% (THE EXPERT PANEL, 2001).

Em 1997, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (FDA), após uma rigorosa avaliação de estudos clínicos e epidemiológicos, reconheceu a eficiência da ingestão de 3 gramas diárias de b- glucana na redução dos riscos de doenças coronarianas. Com isso, o órgão autorizou o uso de mensagens sobre tais benefícios em embalagens de aveia.

Referências:

ARNOLD, L., BALL, M., MANN, J., MANN, J. Effect of isoenergetic intake of three or nine meals on plasma lipoproteins and glucose metabolism. Am J Clin Nutr, v 57, p 446-51, 1993.   
ANDERSON, R.L., WOLF, W.J. Compositional changes in trypsin inhibitors, phytic acid, saponins and isoflavones related to soybean processing. J Nutr, n 125, p 581-88, 1995.
CARDOSO, S.M.G., PINTO, W.J., REYES, F.G.R., AREAS, M.A. Hipercolesterolemia e produção de radicais livres:efeitos protetores das fibras alimentares. Rev Soc Aliment Nutr, v 31, n 2, p 123-34, 2006.
CHACRA, A.P.M., DIAMENT, J., FORTI, N.A. Classificação das dislipidemias. Rev Soc Cardiol, v 6, p 465-72, 2005.
CHACRA, A.P.M., SANTOS, R.D., MARTINEZ, T.L.R. Hipercolesterolemia familiar. Rev Soc Cardiol, n 3, p 462-75, 2004.
CHEEKE, P. R. Biological properties and nutritional significance of legume saponins. En: Telin L; Grahan HD; eds. Leaf Protein Concentrates. A. V. J., Connecticut, p.396-414, 1983.
DESCOVITH, G.C., CEREDI, C., GADDI, A., BENASSI, M.S., MANNINO, G., COLOMBO, L. et. al. Multicentre study of soybean protein diet for out patient hyper-cholesterolaemic patients. Lancet, n 2, p 709-12, 1980.
JENKINS, D.J.A., KHAN, A., JENKINS, A., LILINGWORTH, R., PAPPU, A.S., WOLEVER, T.M.S. et al. Effect of nibbling versus gorging on cardiovascular risk factors: serum uric acid and blood lipids. Metabolism, v 44, n 4, p 549-55, 1995. 
KRAUSE. Alimentos, nutrição & dietoterapia.11 ed. São Paulo. Roca. 2005.
NACIF, M.A.L., ABREU, E.S., TORRES, E.A.F.S. Avaliação do índice de colesterol e gordura saturada da dieta de indivíduos moradores do município de Ourinhos, SP. Nutrire Rev Soc Bras Aliment, v 29, p 41-50, 2005.
NATIONAL CENTER FOR HEALTH STATISTICS. Annual Data, 1996.
OANKEFULL, D. Soy Protein, Saponins and Plasma Cholesterol the American Society of Nutritional Sciences. J. Nutr., [S.I], n.131, p.2971, 2001.
O'KEEFE, J., H.; NELSON, J.; HARRIS, W. B. Life-style change for coronary artery disease. Postgrad Med., [S.I], v.99, n.2, p.89-106, 1996.
PRAÇA, M.J., THOMAZ, A., CARAMELLI, B. O suco de berinjela (solanum melongena) não modifica os niveis séricos de lípides. Arq Bras Cardiol, v 82, n 3, p 269-72, 2004.
SIDHU, G. S; OKENFULL, D. G. A mechanism for the hypocholesterolaemic activity of saponins. Br. J. Nutr., [S.I], n.55, p.643-9, 1986.
SILVA. Tratado de alimentação, nutrição e dietoterapia. 1° ed. São Paulo: Roca. 2007.
SIRTORI, C.R., GATTI, E., MANTERO, O., CONTI, F., AGRADI, E., TREMOLI, E. et. al. Clinical experience with the soybean protein diet in the treatment of hypercholesterolemia. Am J Clin Nutr, n 32, p 1645-58, 1979.
THE EXPERT PANEL. Executive summary of the third report of the National Cholesterol Education Program (NCEP) Expert Panel on detection, evaluation, and treatment of high blood cholesterol in adults (Adult Treatment Panel III). JAMA, v 285, p 2486-2497, 2001.
WOLK, A., MANSON, J.E., STAMPFER, M.J., COLDITZ, G.A., HU, F.B., SPEIZER, F.E. et al. Long-term intake of dietary fiber and decrease risk of coronary heart disease among women. JAMA, v  281, p 1998-2004,  1999.