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Intolerância à Lactose
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & Nutrição

A intolerância à lactose é um distúrbio bastante comum e afeta pessoas de todas as faixas etárias (Beyer, 2005; Heyman et al., 2006). Caracteriza-se pela inabilidade do organismo em digerir a lactose, açúcar presente naturalmente em diversos tipos de leite (Urggioni e Fagundes 2006). Para que seja digerida, a lactose precisa sofrer a ação de enzimas no intestino delgado (especialmente uma denominada lactase), que são responsáveis por quebrá-la em produtos menores, os quais o organismo é capaz de absorver e aproveitar adequadamente. A má-digestão da lactose se dá essencialmente por uma deficiência da enzima lactase, provocando uma quebra incompleta da lactose, que, então, permanece no intestino delgado sem ser absorvida, passa para o intestino grosso, onde a flora bacteriana fermenta o açúcar, gerando, entre outras substâncias, gases (Beyer 2005). Caso o indivíduo com intolerância à lactose ingira quantidades consideradas grandes deste nutriente (o equivalentes a 1 copo de leite ou mais), o açúcar, que não pode ser absorvido pela mucosa intestinal, é rapidamente fermentado pelas bactérias, o que provoca inchaço abdominal, flatulência e cólicas, podendo ainda causar diarréia (Beyer, 2005).

Cerca de 70% da população mundial apresenta deficiência da enzima lactase (condição chamada hipolactasia) (Beyer, 2005), mas nem todos são intolerantes à lactose, pois, para tanto, deve haver influência também de fatores genéticos e nutricionais (Matthews et al. 2005). Isso porque, após o início da infância, há, via de regra, uma diminuição dos níveis da enzima (Beyer, 2005). Apesar disso, não há evidência científica de que a intolerância seja causada pela permanência do leite na dieta do indivíduo, como tem sido sugerido (Beyer, 2005).

Existem duas formas de deficiência de lactase; uma, muito rara, a deficiência congênita da enzima, desde o nascimento, e outra, que seria a deficiência adquirida, ou seja, secundária a infecções no intestino delgado, inflamações intestinais, AIDS ou desnutrição (Beyer 2005). Neste último caso, a deficiência é geralmente temporária (Liu e Crawford 2005).

O diagnóstico deste distúrbio normalmente é feito com base no histórico alimentar do indivíduo. Podem ainda ser realizados desde testes que avaliam o nível de hidrogênio no hálito ou o nível sérico de glicose após a ingestão de doses padrão de lactose ou uma biópsia do intestino delgado (Swagerty et al., 2002).

Deve-se esclarecer ao paciente com intolerância à lactose que ele não é alérgico ao leite e derivados; a alergia ao leite relaciona-se às proteínas encontradas no leite ao invés da lactose (Swagerty et al., 2002).

O tratamento da intolerância à lactose requer a redução do consumo de alimentos que contenham o açúcar, para alívio dos sintomas (Beyer 2005, Heyman et al. 2006, Matthews et al. 2005, Téo 2002, Urggioni e Fagundes 2006). Estudos mostraram que o consumo de iogurtes e outros produtos fermentados (como leites fermentados) são bem tolerados, assim como alguns queijos (os que, em seu processo de fabricação, são envelhecidos, como o cheddar, o suíço e o gorgonzola) (Beyer 2005). Para um indivíduo deficiente da enzima, porém sem sintomas de intolerância, não é necessária a completa exclusão da lactose, principalmente se a mesma for consumida juntamente com as refeições ou na forma dos produtos mencionados previamente (Beyer 2005, Heyman et al. 2006). Da mesma forma, ingerir pequenas porções de leite por vez, durante várias semanas, não induz aos sintomas da intolerância e pode, ainda, melhorar a tolerância do indivíduo (Beyer 2005, Heyman et al. 2006, Téo 2002). Há, por fim, fatores psicológicos estressantes que devem ser considerados durante o tratamento, pois podem exacerbar os sintomas da intolerância (Téo 2002). Ademais, os pacientes diagnosticados com intolerância à lactose devem receber adequado aconselhamento nutricional em relação aos alimentos que devem restringir e em relação a quantidades e substituições (Matthews et al. 2005).

Uma outra preocupação em relação à alimentação dos pacientes com intolerância à lactose é garantir que a dieta tenha quantidades de cálcio, vitamina D e proteínas adequadas ao bom funcionamento do organismo e para o crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes (Heyman et al. 2006, Téo 2002). Acima de tudo, especialmente para crianças e adolescentes, se eliminados os laticínios da alimentação, uma nova fonte de cálcio deve ser introduzida ou então o mineral em questão deve ser suplementado (Heydan et al. 2006). A importância disso reside no fato de que um baixo consumo de cálcio leva a uma maior fragilidade óssea (mineralização deficiente).

Os sintomas da intolerância à lactose raramente consistem em uma ameaça à vida do paciente, mas causam grande desconforto, piora da qualidade de vida, perda de produtividade e, particularmente em crianças e adolescentes, levam à perdas de dias letivos e de atividades esportivas e de lazer (Heyman et al. 2006). O tratamento é relativamente simples e focado na redução ou eliminação da lactose da dieta, atentando sempre à adequação do consumo de cálcio (Heyman et al. 2006).

Referências utilizadas:

Beyer PL. Terapia nutricional para distúrbios do trato gastrointestinal inferior. In: Mahan LK, Escott-Stump S. Krause: alimentos, nutrição & dietoterapia. São Paulo: Roca, 2005. p.684-7.

Heyman MB. Lactose Intolerance in Infants, Children, and Adolescents. Pediatrics. 2006;118:1279-1286.

Liu C, Crawford JM. O trato gastrointestinal. In:Kumar V, Abbas AK, Fausto N. Patologia – bases patológicas das doenças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. p.886-7.
Matthews SB, Waud JP, Roberts AG, Campbell AK. Systemic lactose intolerance: a new perspective on an old problem. Postgraduate Medical Journal 2005;81:167-173
Swagerty Jr DL, Walling AD, Klein RM. Lactose intolerance. AFP. 2002;65(9):1845-50.

Téo CRPA. Intolerância à lactose: uma breve revisão para o cuidado nutricional . Arq ciências saúde UNIPAR. 2002;6(3):135-140.

Uggioni PL, Fagundes RLM. Tratamento dietético da intolerância à lactose infantil: teor de lactose em alimentos. Hig aliment. 2006;21(140):24-29