
Insuficiência Cardíaca
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & NutriçãoA insuficiência cardíaca (IC) é a via final da maioria das doenças que atingem ao coração, atualmente é considerado um problema epidêmico em progressão devido ao aumento de internações decorrente da patologia. No Brasil, a principal causa da IC é a hipertensão arterial.
Essa se caracteriza como uma disfunção cardíaca que resulta em um suprimento sanguíneo inadequado para atender as necessidades metabólicas teciduais. As alterações normalmente estão relacionadas ao débito cardíaco inadequado, ou seja, alteração no volume de sangue ejetado por minuto, de inicio essa deficiência se manifesta durante a realização de exercícios físicos; outras alterações são a elevação das pressões pulmonar e venosa sistêmica. (Diretriz, 2009)
A IC é classificada com base na intensidade dos sintomas em quatro classes propostas pela New York Heart Assocoation, esta considera o grau de limitação importo pela doença para atividades cotidianas do indivíduo e a qualidade de vida do paciente portador da doença:
Classe I – ausência de sintomas (dispnéia) durante atividades cotidianas. A limitação para esforços é semelhante à esperada em indivíduos normais;
Classe II – sintomas desencadeados por atividade cotidianas;
Classe III – sintomas desencadeados em atividades menos intensas que as cotidianas ou pequenos esforços;
Classe IV – sintomas em repouso.
A insuficiência cardíaca propriamente dita, leva a uma série de alterações fisiológicas, das quais muitas influenciam diretamente no estado nutricional.
Diversos fatores contribuem para uma menor ingestão alimentar e aproveitamento dos nutrientes, entre eles, estão: alterações do trato digestório, como compressão gástrica e congestão hepática, o que gera uma sensação de plenitude pós prandial; edema de alça de intestino que leva a uma diminuição da capacidade absortiva; dispnéia e fadiga, que contribuem para menor aceitação alimentar (Costa et al, 2007 e PAIVA et al, 2004)
Além disso, muitos pacientes apresentam um quadro de hipermetabolismo, devido ao aumento do gasto energético basal provavelmente pelo aumento do consumo de oxigênio pelo miocárdio hipertrofiado e aumento do trabalho respiratório. A somatória desses fatores auxilia no desenvolvimento de um quadro de desnutrição energético-protéico, podendo chegar ao estado de caquexia cardíaca, com o déficit de peso de até 20%. (PAIVA et al, 2004)
A necessidade energética para pacientes eutróficos é de 28kcal/kg/dia para preservar a composição corporal e/ou limitar os efeitos do hipercatabolismo. Para indivíduos desnutridos, a recomendação é de 32 kcal/kg/dia. (Costa et al, 2007 e Diretriz, 2009)
Para ingestão adequada, recomenda-se aumentar a densidade calórica das preparações, oferecendo maior quantidade calórica em menor volume. Deve-se oferecer a dieta de forma fracionada, de 5 a 6 refeições, e com consistência de acordo com a aceitação, em geral os pacientes consomem dieta pastosa. (Costa et al, 2007)
A recomendação de ingestão dos macronutrientes segue a seguinte proporção:
Carboidratos: de 50 a 55% do valor energético total. Preferir carboidratos integrais com baixa carga glicêmica, evitando refinados. Nos casos de retenção de dióxido de carbono aumentada, devido a má ventilação, a redução de ingestão de carboidrato pode auxiliar o estado clínico. (Costa et al, 2007 e Diretriz, 2009)Lipídeos: devem ser de 30 a 35% do valor energético total. Dando preferência em consumir mono e poliinsaturados, em especial aos ácido graxos do tipo ômega 3, restringir a quantidade de colesterol (não ultrapassar de 200mg/dia), gorduras saturadas e trans. (Costa et al, 2007 e Diretriz, 2009)
Proteínas: A determinação deve considerar o estado nutricional, podendo variar de normo a hiperprotéica. Para os indivíduos eutróficos, a recomendação é de 1g/kg peso/dia. Pacientes com grau de desnutrição avançada necessitam de 1,5 a 2g de proteína/kg peso/dia para garantir a síntese protéica (Costa et al, 2007). A recomendação de proteína, também, pode ser estipulada em 15 a 20% do valor calórico total da dieta; quando possível priorizar as proteínas de alto valor biológico.
A quantidade de sódio na dieta dos pacientes com IC, também deve ser controlada. Uma dieta hipossódica é recomendada mesmo para pacientes assintomáticos, tendo como objetivo a prevenção da retenção hídrica. Nos estágios mais avançados da doença e na ausência de hiponatremina recomenda-se a ingestão de 2 a 3g/dia. (Diretriz, 2009)
A restrição de líquidos nem sempre é necessária, será estabelecida de acordo com o grau de insuficiência cardíaca e o quadro clínico do paciente. A monitoração diária do peso, do balanço hídrico e da observação de sinais de congestão são instrumentos para determinar a necessidade ou não da restrição de líquidos (Costa et al, 2007). Em média a ingestão de líquidos deve ser de 1000 a 1500ml para os pacientes sintomáticos com risco de hipervolemia. (Diretriz, 2009)
Suplementos nutricionais são indicados aos pacientes com baixa ingestão alimentar, má absorção de nutrientes, uso de medicamentos que alteram o metabolismo e exceção de nutrientes e em estados de hipercatabolismo. Em casos de anorexia e ingestão alimentar inadequada a nutrição enteral provisória, pode auxiliar na ingestão nutricional adequada. (Anker, 2006)
Cabe lembrar que pacientes que utilizam medicamento do tipo antiocoagulante (que contenha dicumarínicos) devem ingerir quantidade regular de alimantos ricos em vitamina K, como vegetais verde escuro (brócolis, couve, agrião e etc). (Diretriz, 2009)
REFERÊNCIAS
Anker SD. ESPEN Guidelines on Enteral Nutrition: Cardiologyand Pulmonology. Clinical Nutrition, v. 25, p. 311-318, 2006.
COSTA; R.P., SILVA; C.C., PIMENTEL; I.C. Terapia Nutricional nas Doenças Cardiovasculares. In: SILVA, S.M.C., MURA, J.D.P. Tratado de Alimentação, Nutrição & Dietoterapia. São Paulo: Roca, p. 671-692, 2007.
III Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca. Arq Bras Cardiol, vol. 93, p. 1-71 (suplemento 1), 2009.
Paiva SAR, Campana AO, Okoshi MP, Godoy I. Terapia nutricional como coadjuvante no tratamento do paciente com insuficiência cardíaca. SOCESPE Vol.14, n. 1, jan./fev., 2004.