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TCAP – Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & Nutrição

Quando os episódios de compulsão alimentar ocorrem numa freqüência de dois dias por semana, por no mínimo 6 meses, associados a perda de controle de alguma maneira e não são seguidos de tentativas de compensação e perda de peso, trata-se de uma síndrome denominada Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA). (VITOLO et al, 2006). Este transtorno foi descrito pela primeira vez nos anos 1950. No entanto, foi apenas nos anos 1990 que este problema teve seu potencial patológico reconhecido, e sua caracterização colocada em pauta de estudos.

Trata-se da ingestão demasiada de alimentos, quaisquer que sejam eles, em um período determinado de tempo (estimado em 2 horas). Os episódios são acompanhados pela sensação de perda de controle do que foi ingerido e sua quantidade, sentimento de alívio, mas que não traz prazer. O indivíduo percebe que o que faz não tem sentido algum, mas mesmo assim, por ser uma compulsão, os episódios são recorrentes e contínuos. A compulsão alimentar traz sentimentos de angústia, vergonha, nojo e culpa. (AZEVEDO et al, 2004).

É importante citar que a ingestão demasiada de alimentos não é seguida por tentativas de perda de peso e compensação do que foi ingerido, diferenciando o compulsivo alimentar do bulímico nervoso. Normalmente, os portadores de TCAP têm IMC maior do que os com BN (Bulimia Nervosa), além disso, estes últimos apresentam maiores níveis de restrições calóricas. Os pacientes com TCAP podem ser obesos ou não. São aqueles indivíduos que tentaram diversas dietas e que fracassaram e desistiram. Desta forma, apresentam grande flutuação de peso. Possuem auto-estima baixa e preocupam-se com a forma física e o peso em maior intensidade do que aqueles que não possuem o distúrbio.

A ansiedade e estresse são os principais fatores que levam ao aumento das compulsões alimentares. Aumentam a secreção de cortisol, que estimula a ingestão de alimentos e o aumento de peso. (AZEVEDO et al, 2004).

Azevedo et al (2004) indica que a prevalência de portadores desta síndrome está entre obesos e que 20% das pessoas que apresentam compulsão alimentar, possuem diagnóstico de TCAP. E Cordás (2004) afirma que afetam principalmente mulheres jovens e adultas. Em um estudo publicado em 2006, Vitolo et al conta que há grande prevalência de TCAP em universitárias, principalmente da área da saúde, com grande associação com o excesso de peso.

O tratamento nutricional tem como principal objetivo reverter as alterações do estado nutricional provocadas pela compulsão alimentar e promover hábitos alimentares mais saudáveis. Desta forma o paciente aprenderia a forma correta e saudável de perder peso, se alimentar bem, sem que haja inadequações de consumo, no caso, a ingestão excessiva e nada saudável de alimentos. O diário alimentar é muito utilizado no tratamento nutricional da compulsão alimentar periódica, pois é neste local que o paciente registra os alimentos ingeridos, principalmente os alimentos dos episódios de compulsão. É importante anotar o sentimento do paciente no momento do episódio e se existia fome naquela hora. É um exercício que, aos poucos, gera controle e disciplina ao paciente (Latterza, 2004). No entanto, pode levar a um ato de punição pelo próprio paciente, pois ele percebe o “erro” que cometeu.

Como, normalmente, o portador deste distúrbio apresenta peso acima do normal, o tratamento também consiste em dieta prescrita com o objetivo de perda de peso, aumentando, assim, a auto-estima do paciente o que ajuda no tratamento no distúrbio. Alguns profissionais da área de nutrição indicam certas maneiras de contornar e aliviar os efeitos nutricionais negativos que este transtorno pode trazer ao paciente:

  • Fracionar a dieta o máximo, prestando sempre atenção na quantidade a ser ingerida. O paciente comerá muitas vezes ao dia, e isso lhe dará a sensação que está comendo muito;
  • No início do tratamento, estes alimentos a serem ingeridos devem ter baixo teor calórico, pois o paciente ainda não tem seu limite sob controle, e pode exagerar na quantidade sem exceder a recomendação calórica (ex: ingerir um melão inteiro);
  • Estar a par de alimentos vendidos em embalagens individuais e indicá-los. Assim, o paciente irá comer um pacote inteiro, e terá a impressão de que comeu muito. No entanto, terá ingerido bem menos do que costumava ao ingerir uma embalagem de tamanho normal.
  • Propiciar encontros freqüentes com o paciente. Desta maneira, o controle da situação será mais garantido, e o nutricionista irá sempre mostrar ao paciente aquilo que está sendo feito e que pode ser melhorado.

O nutricionista deve ter um olhar crítico, pois muitas vezes o paciente não percebe o problema que tem, ou mesmo não o assume. Cuidados neste sentido devem ser tomados, como prestar atenção se o paciente continua a ganhar peso, mesmo com tratamento nutricional e buscar a sua causa.

Por se tratar de uma compulsão, onde o psicológico exerce grande papel, o tratamento do paciente deve ser de âmbito interdisciplinar, com grande interação entre o nutricionista, médico e o psicólogo.

É uma síndrome com características conflitantes e incertas, e são necessários mais estudos para maiores informações deste distúrbio tão presente em nossa população.

 

Referências Bibliográficas:

- Azevedo, A.P; Santos, C.C; Fonseca, D.C. Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica. Revista de Psiquiatria Clínica. São Paulo, v.31 n.4 p.170-172, 2004.

- Cordás, T.A. Transtornos alimentares: classificação e diagnóstico. Revista de Psiquiatria Clínica. São Paulo, v.31 n.4 p.154-157, 2004.

- Latterza, A.R; Dunker, K.L.L; Scagliusi, F.B; Kemen, E. Tratamento nutricional dos transtornos alimentares. Revista de Psiquiatria Clínica. São Paulo, v.31 n.4 p.173-176, 2004.

- Vitolo, M.R; Bortolini, G.A; Horta, R.L. Prevalência de compulsão alimentar entre universitárias de diferentes áreas de estudo. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v.28 n.1 Porto Alegre jan./abr. 2006.