
O Uso Terapêutico de Creatina
Saúde & Qualidade de Vida - Patologia & NutriçãoA creatina é uma amina encontrada no músculo esquelético e sintetizada endogenamente pelo fígado, rins e pâncreas a partir de aminoácidos não-essenciais: arginina, glicina e metionina. Nos alimentos é encontrada principalmente nas carnes vermelhas, aves e peixes (GUALANO, ARTIOLI, LANCHA, 2008; McARDLE, KATCH, KATCH, 2001).
A creatina exerce um papel muito importante no metabolismo energético. Sua principal função ocorre quando se encontra na forma fosforilada (fosfocreatina), e funciona como um “reservatório de energia” das células para fornecer energia rápida agindo como uma doadora de fosfato para moléculas de ADP, ressintetizando o ATP que é degradado em condições de alta demanda energética dentro da célula (GUALANO, ARTIOLI, LANCHA, 2008; McARDLE, KATCH, KATCH, 2001). Além de aumentar os estoques de creatina muscular, a suplementação dietética com creatina pode aumentar a ressíntese de creatina fosfato (COSTALLAT et al, 2007).
Apesar de a creatina ter se popularizado como agente ergogênico para atividades de alta intensidade é crescente o número de evidências de sucesso no emprego da creatina como agente terapêutico. (PERALTA, AMANCIO, 2002; GUALANO, ARTIOLI, LANCHA JUNIOR, 2008). Estudos mostram que podem auxiliar no tratamento de certas doenças neuromusculares como: miopatias inflamatórias, citopatias mitocondriais (alterações da estrutura mitocondrial e deficiência da fosforilação oxidativa) e distrofia muscular. Além disso, há hipóteses que pode auxiliar no tratamento e prevenção de diabetes mellitus e doenças cardiovasculares (GUALANO, ARTIOLI, LANCHA JUNIOR, 2008). O mecanismo pelo qual possivelmente a creatina afeta o metabolismo da glicose é estimulando a secreção pancreática de insulina, pois, embora a glicose seja o maior estimulante da secreção da insulina, esta também pode ser induzida por proteínas e aminoácidos (COSTALLAT et al, 2007).
Existem fortes indícios que a suplementação de creatina favorece, de fato, o acúmulo de glicogênio muscular e melhora a tolerância à glicose.
Gualano et al (2007) demonstrou que sujeitos saudáveis submetidos a 3 meses de treinamento aeróbio moderado e suplementados com creatina, apresentavam melhor tolerância à glicose quando comparados ao grupo placebo.
Outra hipótese observada é que ocorre uma maior captação de glicose decorrente da suplementação de creatina, isso podendo estar relacionado com o aumento do conteúdo protéico de GLUT-4 (transportador de glicose). Sabe-se que o GLUT-4 é um fator limitante na captação de glicose pelo tecido muscular. Diante disso, o aumento no conteúdo de GLUT-4 poderia refletir melhora na sensibilidade à insulina e, consequentemente, na tolerância à glicose, sem provocar hiperinsulinemia tanto para indivíduos com resistência à insulina, como para diabéticos do tipo II (GUALANO, ARTIOLI, LANCHA JUNIOR, 2008).
As grandes vantagens da creatina sobre os outros hipoglicemiantes seriam seus efeitos benéficos sobre a musculatura esquelética e a provável ausência de efeitos adversos. Além de promover hipertrofia muscular, o que poderia aumentar a tolerância à glicose, esse suplemento incrementa a força o que traria benefícios para desempenho de atividades da vida diária, sobrevida e qualidade de vida (COSTALLAT et al, 2007).
Outro uso terapêutico da creatina também está relacionado com pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Construtiva (DPOC). Isso porque a intolerância ao exercício é manifestação comum em pacientes com DPOC. Este fato já foi atribuído exclusivamente ao distúrbio respiratório que esses indivíduos apresentam; entretanto, atualmente tem-se verificado que a disfunção muscular esquelética periférica é fator importante para a diminuição da capacidade de realizar exercícios nessa população. Além disso, pode ocorrer uma depleção da creatina fosforilada em pequenas atividades, como a subida de um lance de escadas ou uma breve caminhada em maior velocidade que a habitual ( DOURADO; GODOI, 2004).
Gotshalk et al.( 2002) em um estudo realizado com idosos, encontraram resultados que indicam efeitos favoráveis na performance muscular em homens entre 59-73 anos que foram submetidos à administração de creatina.
Portanto tanto para indivíduos com DPOC ou idosos, a suplementação de creatina pode aumentar a massa magra, melhorar o desempenho em atividades e aumentar a força muscular, refletindo em maior habilidade em desenvolver as atividades de vida diária.
No entanto, mais estudos devem ser realizados com o intuito de elucidar os possíveis efeitos da suplementação de creatina na homeostase da glicose dos indivíduos que apresentam DPOC e dos idosos, sobretudo no que se refere a sua possível aplicação terapêutica para garantir doses seguras.Referências Bibliográficas:
DOURADO, V.Z; GODOY, I. Recondicionamento muscular na DPOC: principais intervenções e novas tendências. Rev Bras Med Esporte _ Vol. 10, Nº 4 – Jul/Ago, 2004.
FREIRE, Thiago Onofre et al. Efeitos da Suplementação de Creatina na Captação de Glicose em Ratos Submetidos ao Exercício Físico. Rev Bras Med Esporte, Santo Antônio de Jesus, Ba, v. 14, n. 5, p.149-159, 2008.
GOTSHALK,L.A; VOLEK, J.S; STARON, R.S; DENEGAR, C.R; HAGERMAN, F.C; KRAMER, WJ. Creatine supplementation improves muscular performance in older men. Med Sci Sports Exerc, v.34:537-43, 2002.
GUALANO, Bruno; ARTIOLI, Guilherme Giannini; LANCHA JUNIOR, Antonio Herbert. Efeitos da suplementação de creatina no metabolismo glico-lipídico: possíveis aplicações terapêuticas. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, n. , p.149-159, 2008.
MCARDLE, William D.; KATCH, Frank I.; KATCH, Victor L.. Nutrição para o desporto e o exercício. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.a., 2001.
PERALTA, José; AMANCIO, Olga Maria Silverio. A creatina como suplemento ergogênico para atletas. Rev. Nutr., Campinas, n. , p.83-93, 2002.