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Estimativa de Consumo de Sódio Pela População Brasileira
Saúde & Qualidade de Vida - Saúde & Nutrição

Artigo publicado em abril deste ano (2009) estimou o consumo de sódio pela população brasileira através da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada no Brasil entre julho de 2002 e junho de 2003. O objetivo do estudo foi o de estimar a magnitude e a distribuição regional e socioeconômica do consumo de sódio no Brasil e identificar as fontes alimentares que mais contribuem para esse consumo.

Para o estudo, foram analisados 969.989 registros de aquisição de alimentos efetuados por uma amostra probabilística de 48.470 domicílios localizados em 3.984 setores censitários do país. Realizou-se conversão dos registros das aquisições de alimentos em nutrientes por meio de tabelas de composição de alimentos e foram calculadas a disponibilidade média de sódio por pessoa e por dia e a disponibilidade média ajustada para um consumo energético equivalente a 2.000 kcal. Calculou-se a contribuição de grupos de alimentos selecionados para o total de sódio disponível para consumo no domicílio.

São várias as evidências que relacionam o consumo excessivo de sal ao desenvolvimento de doenças crônica (OMS, 2007). Estima-se que, entre 25 e 55 anos de idade, uma diminuição de apenas 1,3 g na quantidade de sódio consumida diariamente se traduziria em redução de 5 mmHg na pressão arterial sistólica ou de 20% na prevalência de hipertensão arterial. Além disso, haveria também substanciais reduções na mortalidade por acidentes vasculares cerebrais (14%) e por doença coronariana (9%), representando 150.000 vidas salvas anualmente em todo o mundo (Dickson, 2007). O consumo excessivo de sal também está associado ao câncer gástrico (TSUGANE, 2007) podendo contribuir, ainda, para o desenvolvimento de osteoporose (FRASSETO, 2008).

Nos países desenvolvidos, que contam com estimativas confiáveis sobre o consumo de sódio, a ingestão desse mineral tende a ultrapassar o limite máximo de 2 g (ou 5 g de sal) por pessoa por dia recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2003), sendo a maior parte deste sódio proveniente de alimentos industrializados. Nos países em desenvolvimento, as informações sobre o consumo de sódio ainda são escassas em face da complexidade envolvida na avaliação de sua ingestão pelos indivíduos.

Estimativa indireta, calculada a partir da quantidade de sal por habitante comercializada pelas indústrias brasileiras do setor, indicam que o consumo de sódio no Brasil ultrapassa o limite máximo recomendado para sua ingestão. À conclusão semelhante chegaram estudos realizados em três cidades brasileiras a partir do perfil de aquisição de alimentos pelas famílias (CLARO, 2007) ou de estimativas diretas obtidas com a avaliação da excreção urinaria de sódio (BISI MOLINA, 2003)

Os dados analisados procedem da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) pesquisa que objetiva a obtenção de informações acerca dos rendimentos e despesas das famílias brasileiras. A edição 2002/03 estudou uma amostra probabilística representativa do conjunto dos domicílios brasileiros, bem como das cinco macrorregiões do País conforme situação urbana ou rural do domicílio.

A informação central analisada compreende os registros de todas as aquisições de alimentos e bebidas feitas ao longo de sete dias consecutivos pelos domicílios que integraram a amostra (969.989 registros efetuados por 48.470 domicílios localizados em 3.984 setores censitários).

Após a conversão dos registros semanais das aquisições de alimentos em nutrientes, calculou-se, para cada unidade de estudo, a disponibilidade diária por pessoa de energia e de sódio. Adicionalmente, visando contornar o fato de que se analisa a disponibilidade domiciliar de sódio e não o consumo efetivo desse nutriente, visto que não são consideradas as refeições feitas fora do domicílio, nem a fração de alimentos adquiridos mas não-consumidos, calculou-se a disponibilidade de sódio ajustada para um valor energético total de 2.000 kcal, correspondente à recomendação brasileira para a ingestão diária per capita de energia.

Resultados do Estudo:

Para o país como um todo, a quantidade de sódio disponível para consumo foi de 4,5 gramas por pessoa por dia (g/p/d), portanto mais de duas vezes superior ao limite máximo de consumo de 2 g/p/d. Em nenhuma região brasileira a disponibilidade domiciliar de sódio foi inferior a 4 g/p/d. Em todas as regiões, a disponibilidade de sódio foi maior nos estratos de domicílios rurais. A menor disponibilidade de sódio, encontrada nos estratos de domicílios urbanos da região Centro-Oeste, superou em 70% o consumo máximo recomendado.

O estudo verificou que cerca de três quartos do sódio disponível para consumo provêm da aquisição de sal de cozinha (71,5%) ou de condimentos à base desse sal (4,7%). O restante do sódio disponível para consumo provinha da aquisição de alimentos processados com adição de sal (15,8%), de alimentos in natura ou alimentos processados sem adição de sal (6,6%) e de refeições prontas (1,4%).

Os resultados encontrados indicam que a quantidade de sódio disponível para consumo nos domicílios brasileiros excede em mais de duas vezes a ingestão máxima recomendada (OMS, 2003). Embora em todas as classes de renda a maior parte do sódio disponível para consumo provenha do sal de cozinha e de alimentos à base desse sal, a fração proveniente de alimentos processados com adição de sal aumenta sua importância com o poder aquisitivo domiciliar.

Destaca-se que os dados da POF referem-se à disponibilidade domiciliar de sódio e não ao consumo efetivo deste nutriente, visto que não foram consideradas as refeições feitas pelos indivíduos fora do domicílio, nem a fração de alimentos adquiridos, mas não consumidos. Visando a contornar essas limitações, o estudo apresentou estimativas para a disponibilidade de sódio ajustadas para uma disponibilidade fixa de 2.000 kcal/p/d. A eficácia deste ajuste pressupõe duas premissas básicas: 1) a de que as refeições feitas fora do domicílio tenham teor de sódio semelhante ao das refeições feitas no domicilio e 2) a de que a fração desperdiçada dos alimentos seja independente do seu teor de sódio.

Embora não conheçamos estudos brasileiros que tenham comparado o teor de sódio de refeições feitas dentro e fora do domicílio, de modo geral, admite-se que as refeições feitas fora de casa tendam a apresentar maior teor de sódio. Se este fenômeno for de fato observado no Brasil, o real consumo de sódio pela população poderia ser mesmo maior do que aquele estimado neste estudo. A ingestão de sódio poderia estar subestimada particularmente no meio urbano, onde o hábito de fazer refeições fora do domicílio tende a ser mais comum. Utilizando os dados da POF 2002/03, o estudo estimou que os alimentos consumidos fora do domicílio representem 24% das despesas totais com alimentação para famílias urbanas e 12% para famílias rurais.

Apesar das limitações características das POF, estimativas médias do consumo de vários grupos de alimentos obtidas a partir inquéritos de compra de alimentos tendem a concordar com resultados obtidos por meio de inquéritos individuais de consumo (BECKER, 2001). Ademais, no caso de alimentos utilizados como ingredientes de preparações, como óleo, açúcar e condimentos, admite-se que inquéritos de compra possam refletir melhor a ingestão real dos indivíduos, do que inquéritos de consumo. Isso ocorreria em face da dificuldade dos indivíduos em relatar a quantidade consumida de alimentos ingeridos como parte de preparações.

Se o consumo excessivo de sódio no Brasil não parece diferir substancialmente do que vem sendo registrado nos países desenvolvidos, outra é a situação com relação à procedência do nutriente. Nesses países, estima-se que a maior parte do sódio consumido pelos indivíduos de - 60% a 90% - provenha de alimentos processados pela indústria e não do sal adicionado aos alimentos pelos indivíduos. Situação semelhante à situação encontrada no Brasil, onde a maior parte do sódio consumido aparenta ser proveniente do sal de cozinha e de condimentos à base de sal, ocorre em outros países em desenvolvimento.

Em conclusão, os resultados confirmam a suposição de que o consumo de sódio no Brasil excede largamente a recomendação máxima para esse nutriente em todas as regiões brasileiras e classes de renda. Apontam, também, a pertinência para o País das recentes recomendações da OMS relativas à adoção de políticas públicas que, simultaneamente, informem a população sobre a importância de reduzir a quantidade de sal adicionada aos alimentos e regulem o teor de sódio dos alimentos processados.

Acesse o estudo na íntegra:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=
S003489102009000200002&lng=en&nrm=iso