
Glutamina na Função Imune
Saúde & Qualidade de Vida - Saúde & NutriçãoA glutamina é o aminoácido livre mais abundante no músculo e no plasma humano, sendo também encontrada em concentrações relativamente elevadas em muitos tecidos. É um aminoácido importante para o crescimento e a diferenciação celular, transporte de cadeia carbônica entre os órgãos e fornecimento de energia para células de rápida proliferação, como os enterócitos e as células do sistema imune (PACIFICO et al., 2005).
Apesar da glutamina compreender em média 20% dos aminoácidos encontrados na corrente sanguínea (RIBEIRO et al., 2004), não é considerado um aminoácido essencial uma vez que pode ser sintetizado pelo corpo humano a partir do glutamato ou acido glutâmico (MURA & SILVA, 2007). É considerado um aminoácido condicionalmente essencial, pois o aumento da demanda de glutamina nos tecidos em situações de hiper-catabolismo associadas a grandes cirurgias, queimaduras extensas, sepse e inflamações resulta na redução significativa dos seus níveis plasmáticos, mesmo ocorrendo aumento na liberação pelos músculos esqueléticos (ALBERTINI & RUIZ, 2001).
Este aminoácido pode ser considerado como importante fonte de energia para os enterócitos e para a integridade e função da mucosa intestinal. Deste modo, faz parte da terapia nutricional das patologias intestinais com o objetivo de preservar estruturalmente a parede das mucosas do aparelho digestivo. Ela é uma reguladora da síntese protéica e da uréia e transporta a amônia da periferia para os órgãos viscerais. É considerada também uma precursora da biossíntese dos ácidos nucléicos e de todas as células do organismo. (ALBERTINI & RUIZ, 2001).
Glutamina x sistema imunológico
A glutamina tem despertado bastante interesse dos pesquisadores por sua capacidade de interferir no funcionamento de células do sistema imune - pois é uma fonte energética importante para os macrófagos, linfócitos e demais células do sistema imunológico, que utilizam este aminoácido de forma semelhante à utilização da glicose, estimulando a proliferação de linfócitos e diferenciação das células B, produção de IL-1 e a fagocitose dos macrófagos (LEANDRO, 2006).
Sabe-se ainda que a depleção de glutamina vêm sendo objeto de muitos estudos, sobretudo no que se refere ao sistema imune e à susceptibilidade às infecções, já que sua metabolização pelas células imunológicas fornece substratos fundamentais para a formação de membranas celulares durante a atividade das células fagocitárias, síntese de citocinas (fator de necrose tumoral e interleucinas), e ânion superóxido. Assim, a fagocitose, a degranulação e a produção de citocinas por neutrófilos e macrófagos estão intimamente relacionadas à disponibilidade de glutamina, de tal forma que situações de estresse podem induzir a imunossupressão (PACIFICO et al., 2005).
Além disto, a depleção da glutamina exerce impacto negativo sobre a celularidade da mucosa intestinal. Isto contribui para alterações na função de barreira do epitélio digestivo, as quais, aliadas a outras situações que debilitam a mucosa, como a má perfusão e as alterações hormonais - acabam por predispor à translocação bacteriana e à conseqüente sepse (PACIFICO et al., 2005).
Suplementação
De acordo com PACÍFICO et al. (2005), uma metanálise realizada por NOVAK et al., em 2002, a suplementação de glutamina promoveu redução das infecções e do tempo de internação no grupo de pacientes cirúrgicos, sendo verificada diminuição da mortalidade em pacientes críticos. Os resultados mais expressivos e animadores foram obtidos com altas doses do aminoácido endovenoso. Todavia, há uma lacuna de informações no que concerne à faixa etária pediátrica, com exceção de uns poucos estudos abordando pacientes pediátricos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que receberam suporte nutricional com glutamina. Em vista dos potenciais benefícios deste aminoácido, torna-se pertinente e relevante o interesse pelos efeitos da suplementação da glutamina em crianças com doenças graves.
Segundo PACIFICO et al. (2005), os potenciais efeitos benéficos da suplementação da glutamina são:
• Aumentar a síntese de glutationa, potencializando as defesas antioxidantes.
• Manter a integridade da mucosa intestinal (fonte energética para enterócitos), evitando a translocação bacteriana.
• Aumentar a síntese de proteínas da resposta inflamatória, atenuando o processo inflamatório.
• Preservar a função imune, servindo de fonte energética para linfócitos e precursores de citocinas.Dessa forma, a glutamina pode ser considerada um recurso nutricional interessante para a melhora a função imune de indivíduos em geral, especialmente aqueles imuno-suprimidos.
REFERÊNCIAS:
- PACIFICO, S.L.; LEITE, H.P.; CARVALHO, W.B. de. Glutamine supplementation: is it beneficial to critically ill children? Rev. Nutr., Campinas, v.18, n.1, 2005.
- RIBEIRO, S.R.; PINTO JR, P.E.; MIRANDA, A.C. de; BROMBERG, S.H.; LOPASSO, F.P.; IRYA, K. Weight loss and morphometric study of intestinal mucosa in rats after massive intestinal resection: influence of a glutamine-enriched diet. Rev. Hosp. Clin., São Paulo, v.59, n.6, 2004.
- MURA, J.D.P.; SILVA, S.M.C.S. da. Tratado de alimentação, nutrição & dietoterapia. São Paulo: Roca, 2007.
- ALBERTINI, S.M.; RUIZ,M.A. O papel da glutamina na terapia nutricional do transplante de medula óssea. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., São José do Rio Preto, v.23, n.1, jan./abr. 2001.
- LEANDRO, C.G.; NASCIMENTO, E. do; AZEVEDO, M.M.; VIEGAS, A.; ALBUQUERQUE, C.; CAVALCANTI, C.B.; MANHÃES-DE-CASTRO, R.; CASTRO, C.M.M.B. de. Efeito da L-Glutamina sobre o perfil leucocitário e a função fagocítica de macrófagos de ratos estressados. Rev. Nutr., Campinas, v.19, n.4, jul/ago. 2006.
- NOVAK, F.; HEYLAND, D.K.; AVENELL, A.; DROVER, J.W.; SU, X. Glutamine supplementation in serious illness: a systematic review of the evidence. Crit Care Med. v.30, n.9, p.2022-9, 2002.