buscar:      

siga-nos:


Vinhos e Doenças Cardiovasculares
Saúde & Qualidade de Vida - Saúde & Nutrição

Crescem as evidências que sugerem a existência de uma correlação negativa entre consumo de bebidas alcoólicas (1 a 2 doses/d) e incidência de doenças cardiovasculares (DCV) (Wollin & Jones, 2001). Os estudos populacionais têm mostrado que os efeitos protetores do álcool são específicos do vinho, principalmente do vinho tinto. Isso ocorre porque o vinho tinto têm sido a base para o “French Paradox”, ou paradoxo francês, que sugere que apesar do aumento do consumo de gordura saturada na França, a população francesa exibe uma baixa incidência de mortalidade por DCV e, coincidentemente ou não, é o país que mais consome vinho tinto no mundo.

Gronbaek e outros pesquisadores avaliaram, em 1995, a associação entre ingestão de diferentes tipos de bebidas alcoólicas em população de 13.000 homens e mulheres (de 30 a 79 anos). Nesta população, o risco relativo de morte por DCV foi reduzido de 1, em não bebedores, para 0.4 para aqueles que ingeriam de 3–5 taças de vinho/d. O estudo mostrou ainda que a ingestão de cerveja também teria efeito na redução do risco de DCV, em proporção bem menor, e que a ingestão de produtos destilados de álcool exibia um quadro diferente, aumentando o risco em 40%, comparados aos não bebedores (Gronbaek et al 1995).

Segundo Wollin e Jones (2001), o álcool, proveniente das bebidas alcoólicas, reduziria o colágeno que induz a agregação de plaquetas (formação de placas nas artérias) e os processos de trombose, enquanto os compostos fenólicos, provenientes do vinho tinto, reduziriam a peroxidação lipídica, reações químicas mediadas pelos radicais livres, que podem romper as estruturas celulares e ter como conseqüência o surgimento de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de câncer, e a oxidação do LDL(colesterol ruim), que está envolvida diretamente com os processos de aterosclerose. Os autores deste estudo concluem que a ingestão moderada de álcool, principalmente na forma de vinho tinto, parece proteger da morte por DCV.

Um outro estudo, in vivo, demonstrou que o consumo diário de vinho tinto (400 ml) por duas semanas, reduziu a susceptibilidade do plasma à peroxidação lipídica, enquanto que o consumo de vinho branco mostrou efeito contrário, o que confirma os benefícios dos compostos fenólicos (Fuhrman et al 1995).

Uma deficiência dos estudos quanto ao consumo de vinho é em relação à metodologia utilizada. Pois, nos diferentes estudos observados, a população em questão não é avaliada quanto aos hábitos alimentares, nível de stress, atividade física e fatores ambientais, além do histórico familiar para a doença. Sabe-se que estes fatores têm grande influência no desenvolvimento de DCV, sabe-se, ainda, que assim como o vinho tinto, também o suco de uva apresenta compostos fenólicos. Além disso, muitos outros alimentos têm o potencial de reduzir a peroxidação lipídica e a oxidação de LDL.

Não é um consenso na comunidade científica os mecanismos de ação do álcool, em especial do vinho, e seus possíveis efeitos benéficos. Além disso, as evidências presentes não são suficientes para o estabelecimento de uma recomendação de consumo de vinho tinto para a população em geral, já que os compostos do vinho podem variar de acordo com o tipo de uva, região de cultivo, processamento, entre outros, além do teor alcoólico.

Obviamente que, mesmo com algumas evidências dos efeitos benéficos do vinho tinto, seu consumo sozinho não irá inibir o desenvolvimento da DCV, é importante ter hábitos saudáveis, e a prescrição de uma quantidade de vinho deveria ser tomada com base individual.

Referências:

1- Gronbaek M, Deis A, Sorensen TIA, Becker U, Schnohr P, Jensen G. Mortality associated with moderate intakes of wine, beer, or spirits. BMJ 1995; 310: 1165–69.

2- Wollin SD & Jones PJH. Alcohol, Red Wine and Cardiovascular Disease. The Journal of Nutrition 2001; 1401-04.

3- Fuhrman B, Lavy A, Aviram M. Consumption of red wine with meals reduces the susceptibility of human plasma and low-density lipoprotein to lipid peroxidation. Am J Clin Nutr 1995; 61: 549-54.